The Misfits – John Huston

Nos momentos iniciais de The Misfits, o tema do divórcio é recorrente e julgamos que será o mote para toda a narrativa. Roslyn e Isabelle, interpretadas por Marylin Monroe e Thelma Ritter, respectivamente, discutem apressadamente a justificação a apresentar ao juiz, que irá atribuir à primeira o seu estatuto de divorciada. Roslyn inventa uma banalíssima narrativa de violência conjugal; mas fá-lo, contrariamente ao que se possa pensar, pelo mais nobre dos motivos: pesa-lhe muito a ausência do seu marido, e revolta-a realidade do amor matrimonial. Inocência, e ingenuidade. Poucas horas depois, com a amiga num café, e já em pleno gozo do recente estatuto de divorciada, conclui uma amena conversa com estranhos – dois pseudo-cowboys (Clark Gable e Eli Wallach) – ao aceitar o seu convite para um passeio pelos terrenos remotos do Nevada, longe da azáfama da cidade.

Aqui, The Misfits engana as nossas expectativas e muda literal e figurativamente o seu plano de fundo. Não é um filme (apenas) sobre a separação matrimonial, ou a alienação do humano na metrópole; há uma transformação no corte entre o plano citadino e a paisagem da periferia deserta de Reno, Nevada, envolta numa sofisticada estética western. Evocando na memória a trilogia de Antonioni, transforma-se num estudo de personagens e os seus crónicos problemas de comunicação e isolamento.

O elenco. (moviestillsdb.com)

A candura de Roslyn provoca, logo nos momentos iniciais, uma certa tensão no seio do grupo. Entre os dois homens, aos quais mais tarde se junta a personagem de Montgomery Clift, desenvolve-se um certo triângulo (ou quadrado) amoroso. De facto, não é uma premissa muito estimulante. A dada altura, a personagem de Marylin e o seu cowboy predilecto encetam uma vida de casal. Estarão satisfeitos?

Mas, sensivelmente a meio do filme, a visão idílica com que Roslyn entende o mundo torna-se um intransponível problema, e sofre quando confrontada com a força destruidora do homem – começou quando Gay quer matar um coelho, e, mais tarde, constata a violência imposta aos animais nos rodeos americanos. E realmente é uma posição um pouco pateta, sobretudo por ser a América dos anos 60. Digamos que Roslyn é uma proto-vegetariana.

Neste contexto, os momentos finais do filme são ainda mais importantes, pelo simbolismo e a força que impõem no final da narrativa, e dificilmente teríamos um final mais apropriado para este The Misfits. São minutos de contemplação da relação entre o homem e o animal, duas forças em oposição numa guerra onde ambos perdem; há uma redenção moral no subtexto destes momentos.

Marilyn_Monroe_Misfits

Não consigo argumentar que The Misfits seja um grande filme. A narrativa não nos apresenta nada de extraordinário. Os diálogos são um pouco banais. Há, no entanto, um óptimo trabalho por parte dos actores e, por consequência, excelentes momentos de representação ao longo do filme. Os temas que a ingenuidade de Roslyn nos traz são bem trabalhados a partir da segunda metade, e culminam cinematograficamente nessa cena final.

Paralelamente ao que se passa em frente às câmaras, há uma série de informações que completam o imaginário do filme: este foi o último trabalho de Clark Gable, que morreu dez dias depois das filmagens (ataque cardíaco), e o último filme concluído por Marylin Monroe. Os trabalhos no set eram algo caóticos, numa altura em que a actriz lutava com alguns problemas de drogas e chegava constantemente atrasada. A partir deste ponto, o declínio acentuou-se mais e mais. Marilyn viria a ser descoberta numa casa de banho em Agosto de 1962.

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