O passado mês em cinema – Março.

Crónica anunciada de uma muito parca assiduidade. O mês de Abril promete mais conteúdo, mas, por enquanto, fiquemo-nos por Março e pelos seus… cinco filmes. Um mês  pouco activo, e sem grande critério cinematográfico.

tumblr_nu8chyYloi1ruok98o1_1280Para começar, finalmente tirei a prova dos nove com Carol, o filme de Todd Haynes que há muito me interessava. A natalícia Nova Iorque dos anos 50, muito bem recriada por Haynes e a sua equipa de cenários, serve como moldura para o romance entre Therese e Carol (Rooney Mara e Cate Blanchett, respectivamente, e ambas belíssimas no filme). Fundamentalmente, o foco narrativo está no desenvolver desta relação, partindo do ponto de vista de Therese, e aposta na envolvência que se cria quando testemunhamos a primeira vez que os seus olhares se cruzam, o seu primeiro encontro, e tudo o resto que faz parte de um outro filme romântico. No entretanto, toca temas como o conservadorismo, o preconceito sexual, e os direitos sociais dos lgbt. Faz sentido um filme como Carol nos dias de hoje, por motivos evidentes, mas é difícil não pensar que podia ser feito mais – aproveitar mais as personagens, os diálogos, arriscar mais com a narrativa, para que não fosse apenas mais um filme bonitinho. No final, é mesmo isso que fica: um filme simpático, bem concebido, mas que, provavelmente, não nos irá marcar durante muito tempo.

É também possível encontrar algumas semelhanças entre Carol e The Squid and the Whale (2005), filme do prolífico Noah Baumbach (Frances Ha, While We’re Young, etc.): são ambos filmes que incidem em conceitos familiares, assim digamos, e herméticos na sua acção e no seu tempo. Na linha dos seus filmes de traços autobiográficos, Baumbach recupera um dos períodos mais atribulados da sua vida, 220px-Squid_and_the_whalequando os seus pais se divorciaram. Como documento desse processo, The Squid and the Whale oferece o ponto de vista de cada um da família de quatro, com particular foco nos dois filhos do casal, que sofrem as consequências mais directas; as mesmas que Baumbach explora de uma forma cáustica, e até pitoresca, sem nunca perder os dois pés bem assentes na realidade. Pensemos que este é um coming of age extremamente pessimista. De resto, as personagens são muito bem construídas, com o pai professor universitário e escritor em declínio, cuja vida depende directamente do seu sentimento de genialidade; a mãe, farta da auto-comiseração do marido, prestes a ultrapassá-lo no meio literário; os dois filhos, ambos em idades complicadas, e que dos pais parecem apenas retirar as piores lições. The Squid and the Whale é um bom filme – recomenda-se. Para o próximo mês, a promessa de explorar outros títulos da sua filmografia.

Depois, The Graduate (1967), de Mike Nichols numa interessante experiência: não sabia o que esperar deste filme. O poster promocional, com uma perna feminina envolta numa meia de nylon em primeiro plano, sugere um predomínio sexual como temática, assim como uma saudável dose de patetice. Em boa verdade, não nos enganou, mas traz também muito mais que isso. É um filme sobre um adolescente, interpretado por Dustin Hoffman (aos 30 anos…). A sua personagem é insegura, imatura, e um algo The-Graduate-Movie-Posterneurótica, e sofre de aguda indecisão pós-escola secundária, até que se vê tomado nas garras dominantes e experientes de uma femme fatale, que é, simultaneamente, amiga dos seus pais. Não era algo que ele quisesse mesmo, mas acontece. E os dias passam, sem que o seu futuro seja uma preocupação. Nichols, através de intencionais escolhas de realização, apresenta a narrativa e as suas implicações, duma forma que não depende directamente dela: basta pensar na cena da piscina, subliminarmente kafkiana; na edição que sugere a passagem dos dias duma forma repetitiva; a própria música dos Simon & Garfunkel, que a dada altura ganha um sentido ambivalente (e já agora, o cameo do próprio Simon). Falando em interesse cinematográfico, este é um filme decididamente atrevido e repleto de óptimos pormenores. The Graduate, extremamente embebido no seu tempo, ainda ataca transversalmente todas as gerações: será pertinente enquanto houver uma linha, por muito abrangente e subtil que seja, que separa a adolescência, da vida adulta; as fantasias, da vida real; o idílico afazer, das demandas da sociedade organizada. É um registo agri-doce, como o é também a vida.

E no seguimento do que vimos a semana passada, decidi dar uma outra oportunidade a Edgar Wright (Hot Fuzz). Em 2010, pegou num universo que estava a ter o pico do seu sucesso – Scott Pilgrim vs. The World – e fez a ponte entre os comic books e o mundo do cinema. E fê-lo como? A transição é, tradicionalmente, complicada. Para quemscott-pilgrim-vs-the-world-movie-poster-2010-1020561018 viu Hot Fuzz, entre as características que mais saltaram à vista contavam-se a edição rápida e ajustada à acção, e a comédia visual, pateta sem ser chata, que pautavam mais de metade das cenas. No universo de Scott Pilgrim, era importante manter o sentido de comicbook e a sua inerente coolness, sem desvirtuar a sua história: Scott Pilgrim deve combater os sete ex-namorados de Ramona Flowers para poderem namorar em paz. Como não li os livros, não posso aferir a fieldade do filme aos originais, mas nesta adaptação a música e os videojogos são muletas recorrentes para temperar a edição acelerada tão característica do cinema de Edgar Wright. Ao longo do filme, é normal surgirem emoticons e referências a imaginários que não são necessariamente evidentes, mas neste caso, e tendo em conta o público alvo da série, parece-me uma escolha muitíssimo acertada, e que resulta bem – por isso, o filme vale a pena quanto mais não seja pelas suas valências técnicas. Quanto ao resto, a narrativa não é nada por aí além – está praticamente apresentada -, mas os seus actores, e respectivos diálogos, conseguem adicionar mais umas pontas de charme a este filme; pela negativa, a inevitável repetição da história, e os seus últimos vinte minutos que, pelo que tenho lido, não me desapontaram apenas a mim – devia ter acabado em grande, e perdeu o fôlego muito perto da meta.

the-internets-own-boy-the-story-of-aaron-swartz.29106.jpgPara terminar, fugimos ao registo narrativo em entramos em território documental: The Internet’s Own Boy: The Story of Aaron Swartz é um filme dedicado à vida e feitos de Aaron Swartz, um jovem americano prodigioso que desde tenra idade muito se interessou pela informática e, consequentemente, pela Internet. O seu contributo pode passar despercebido, mas todos os dias interagimos com algo que teve o seu dedo: basta lembrar que co-fundou o Reddit, assim como ajudou à criação do protocolo Creative Commons (sob o qual opera, por exemplo, A Mosca). Além da obrigatória passagem biográfica, o documentário dá muita importância a um dos casos mais flagrantes da justiça americana nos últimos anos, quando Swartz foi incriminado por um crime que realmente cometeu (invadiu os servidores de um repositório de papers académicos, e disponibilizou-os online), mas cuja sentença foi absolutamente desajustada. Seguiu-se um período muito complicado na sua vida pessoal, e que eventualmente o levou ao suicídio. Dada a crescente importância da Internet nas nossas vidas – e, simultaneamente, a nossa total dependência – é importante recordar que devemos lutar pelo que acreditamos ser melhor dentro deste gigante meio de comunicação. Aaron Swartz foi uma força brutal nos processos de bloqueio ao PIPA/SOPA e derivados, e sempre uma voz consciente no tocante aos problemas de privacidade, gestão de informação e outros problemas. É importante não deixar que o seu legado tenha sido em vão. Recomenda-se o documentário aos que se interessam por estas matérias e por quem quer perceber o mundo em que realmente vivemos.

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