The Big Short – Adam McKay

Todos os anos, por esta altura, coincide o calendário cinematográfico com a entrega dos mais mediáticos prémios de Hollywood – os Oscars. E por isso, embora estejamos algo atrasados em relação aos Estados Unidos, são estes os meses mais apropriados, e aconselhados, para visitar as salas de cinema em Portugal. Falo das grandes cadeias, claro, porque as mais pequenas, e nos quais incluo os cineclubes, profissionais ou amadores, são muito mais consistentes, e em melhor serviço da sétima arte, ao longo de todo o ano. Divago.

De entre todos os filmes que têm feito mexer as nossas expectativas – The Revenant, do mexicano Alejandro González Iñárritu, que conseguiu converter Hollywood à sua visão de blockbusterCarol, de Todd Haynes, do qual há muito ouço falar maravilhas; Room, de Lenny Abrahamson, que já por aqui passou e convenceu, etc. – havia ainda um que se propunha a contar uma história verídica, como tem sido moda ultimamente, sobre o maior escândalo financeiro dos últimos anos,  ou  desde que Wall Street se tornou uma autêntica máquina de mexer e fazer dinheiro.

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The Big Short parte de uma premissa interessante. A não ser que nos últimos anos tenham vivido numa bolha, saberão decerto – ou pior, terão até vivido – as consequências do choque da falência bancária das maiores instituições americanas. Elas caíram e como um efeito dominó, provocaram danos que ricochetearam para o resto do mundo globalizado, afectando outras instituições financeiras. Os ecos sentiram-se na Europa, como também em Portugal. Por isso, The Big Short aproveita uma história verídica, e simultaneamente, sem perigo de redundância, real: é uma história sobre o hoje, o presente, na qual somos visados e temos também uma palavra a dizer.

Tendo uma narrativa, que é naturalmente cativante, põe-se uma outra questão, sobremaneira importante no cinema: como a apresentar? A opção do realizador Adam McKay, alguém com trabalho feito na comédia, recaiu sobre não se levar demasiado a sério na parte dramática/documental, nem perder as estribeiras de forma a que a sua forte mensagem não transparecesse em entrelinhas cómicas: deambula neste “terreno de ninguém”, quebrando a fourth wall com explicações culinárias do chef Anthony Bourdain, e sem medo de introduzir, e explicar, algum jargão técnico financeiro. Funciona perfeitamente neste formato, que não sendo completamente dramático, nem cómico, está sólido. Completo. Quanto ao elenco de estrelas (Brad Pitt, Steve Carell, Christian Bale, e Ryan Gosling), podia ter-se feito bem mais. Carell brilha, Bale quase surpreende, e os outros cumprem. Não há problema.

Especulo, por  momentos: o sinal verde para a realização do filme terá beneficiado do sucesso de outros projectos, tanto de cinema como de televisão, entre os quais incluo necessariamente a série da USA Network, Mr. Robot.  Não sendo fã do resultado final, confronta frontalmente a sociedade actual e a própria demografia para a qual estava direccionada, em moldes não comuns nas grandes cadeias de produção americanas. Talvez não haja nenhuma correlação, mas há alguns pontos comuns entre os dois: esta abertura para falar de questões fracturantes, sem papas na língua, e com um apurado sentido de moralidade. Aqui, não é a audiência que escolhe um lado, como é usual, entregando ao filme a responsabilidade de que se estabeleça uma relação emocional entre nós e as personagens – aqui, nós, a audiência, somos esse lado,  escolhidos pelo filme. A ligação emocional está feita, porque é uma história sobre nós e o nosso tempo, e é explorada visualmente através das vinhetas reais (que são preponderantes, também, em Mr. Robot), que foram captadas no mundo real (não-ficcionado).

The Big Short está um passo além do típico drama baseado em factos reais, porque é inteligente na forma como se sustenta nesses factos; apresenta-nos as questões essenciais de uma forma prática, sem complicar nem perder o interesse do público – que, afinal, quer entretenimento, e não uma aula financeira; e, por último, dramatiza com eficácia toda a situação, para que tenha sucesso comercial. Ganhou a aposta. Temos filme!

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P.S.: a não esquecer, porém, que The Big Short não é um documentário. Sobre esta matéria, há um bem interessante e naturalmente completo: chama-se Inside Job (2010), da autoria de Charles H. Ferguson.

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