David Foster Wallace e The End of the Tour.

Eram outros tempos quando, em 1996, Infinite_jest_coverDavid Foster Wallace, seguidor duma corrente pós-moderna, na veia de, por exemplo Thomas Pynchon ou Kurt Vonnegut,  editou o seu titânico livro Infinite Jest (aqui, sob o nome A Piada Infinita, com edição pela Quetzal), uma autêntica bomba literária que o elevou ao estatuto de big thing nos Estados Unidos da América – e um pouco por todo o mundo. Este sucesso levou, como acontece frequentemente, a que a sua vida pessoal suscitasse interesse: e Foster Wallace dava pano para mangas para que muito se pudesse especular, numa infrutífera tentativa de descortinar a pessoa por trás do escritor. Mais tarde, estava confirmado o trágico final: suicidar-se-ia em 2008, inflamando, mais ainda, a sua persona de génio incompreendido.

Há alguns anos que tenho A Piada Infinita referenciada como uma obra a ler, mas intimido-me pela sua dimensão hermética e a enorme quantidade de notas e subnotas que contribuem para a estrutura não-linear do livro. Nem sequer cheguei ao consenso entre ler na língua original, ou na tradução para português. Depois, claro está, a própria pessoa de David Foster Wallace funciona como um foco de atenção, envolta numa espécie de mistério cultivado, alheio a grandes entrevistas nem a exposições da sua pessoa. A pergunta, muito mais complexa e multifacetada, resume-se assim: o que passou na cabeça de alguém que escreve em catadupas como fez o americano, e depois, tragicamente, põe termo à sua vida? Sempre imaginei que a resposta estivesse presente na sua obra escrita, como uma mágica intenção epifânica, visível após o revolver de todas as palavras e ideias, que fizesse a ponte entre David e o seu leitor. Seria isto possível, sequer?

Acontece que, por volta do lançamento do seu livro, o jornalista David Lipsky da Rolling Stone propôs uma longa entrevista ao longo de 3 dias, e Foster Wallace, relutantemente, aceitou. Gravaram-se horas de conversa em cassete, em variados tons e assuntos, que nunca vieram a público; o artigo acabou por nem sequer ser publicado, muito menos escrito – consta que surgiu entretanto uma história mais interessante para a revista. Aquando da morte do autor, Lipsky (também um escritor) transformou as transcrições das conversas no seu livro Although of Course You End Up Becoming Yourself, em 2010, e foi esse mesmo livro que serviu de base ao filme de James Ponsoldt, The End of The Tour, que chegou este ano aos cinemas (ainda sem passagem marcada por Portugal).

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Os papéis principais de Foster Wallace e Lipsky ficaram entregues a Jason Segal e Jesse Eisenberg, respectivamente, e o casting dificilmente seria melhor; Segal interpreta uma personagem dificílima e com todo o mérito, enquanto Eisenberg, embora sofra do mesmo síndroma que Michael Cera (ambos têm imensa dificuldade em sair do seu conforto físico), faz também um papel muito adequado. A narrativa fixa-se no ano de 2008, na manhã seguinte ao suicídio do escritor, e por meio de analepse passa ao ano da entrevista, em 1996. Lipsky interessa-se depois de ter lido A Piada Infinita, e motiva-se na expectativa de descortinar o génio por trás do livro. Acompanhamos a viagem ao encontro de Foster Wallace e as conversas entre os dois.

Num primeiro momento, supus que The End of The Tour seguisse uma fórmula à imagem de My Dinner With Andre (1981), um fantástico filme de Louis Malle; isto é, pleno em diálogo, mas sem desenvolver a narrativa para lá do essencial. Não é bem isso que aqui acontece: como o título indica, Lipsky acompanha Foster Wallace ao longo de uma tour por diferentes estados, para promover A Piada Infinita, e Lipsky entrevista-o, quase continuamente, durante os três dias. No início, o pudor ainda é tangível e as suas conversas circunscrevem-se a temas menos pertinentes – entre eles, o sex appeal de Alanis Morissette; mais tarde, saem ambos da sua zona de conforto e encontram-se numa espécie de meio termo, extremamente revelador, que responde a muitas das nossas perguntas sobre o escritor. O filme funciona extremamente bem na exposição de Foster Wallace, da sua escrita, e das suas motivações, mas aproveita e mostra-nos, simultaneamente, a sua interacção com os outros e, em particular, uma certa crispação entre o seu ego e o de Lipsky: é o que acontece quando temos alguém naturalmente tímido e defensivo, e um outro que o admira; que, entre as suas palavras e acções, quer encontrar uma ideia projectada por si próprio.

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Como não podia deixar de ser, tanto o lançamento do livro de Lipsky como o filme de James Ponsoldt foram alvo de alguma contestação por parte de alguns amigos e familiares de Foster Wallace; por outro lado, muitos foram também os que apreciaram a homenagem e o cuidado com a representação do escritor. É, creio eu, uma homenagem justa à sua pessoa, e uma merecida humanização; para os seus fãs, é um contacto mais pessoal do que o possível através da sua escrita; e, por último mas não menos importante, para o cinema: uma óptima biopic – sensata, nobre, e muito cumpridora – à qual se junta a fantástica caracterização de Jason Segal. Por cá, desde 2010 que David Foster Wallace é editado pela Quetzal, que já lançou A Piada Infinita, com tradução de Salvato Telles de Menezes e Vasco Telles de Menezes, O Rei Pálido, um romance inacabado, e Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer, que reúne alguns textos e ensaios.

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