Servidão Humana – W. Somerset Maugham

12277145_10208069387081615_351519234_nAntes de mais, preparo-vos com uma ressalva, e um aviso: de todos os ramos da arte e cultura que aqui foram abordados, a literatura é para mim, porventura, o mais pessoal. Com ela mantenho uma relação já duradoura, embora tenha tido, a dada altura da minha vida, um enorme interregno de pouquíssimas ou de fracas leituras. Agora, faço o esforço de correr atrás do tempo passado, com um interesse exponencialmente renovado, para que de alguma forma consiga compensar as horas dispendidas em actividades infrutíferas, nas quais o tédio venceu ambos vontade e razão.

Para primeira opinião, debruço-me sobre um dos últimos livros que li, A Servidão Humana , que remonta ao início do séc.XX, e escrito por William Somerset Maugham. A Servidão Humana tem como centro do seu universo Philip Carey, um rapaz a quem a ordem do mundo lhe conferiu a infelicidade de ter um pé boto. Acompanhamo-lo diligentemente desde o seu nascimento até à idade adulta, num espaço temporal que se enquadra desde a infância, passando pela difícil fase do coming of age – física, claro, mas de identidade pessoal também. De resto, é sabido que a personagem de Philip partilha uma imensidão de similaridades com o seu autor, W. Somerset Maugham, pelo que as duas identidades são indissociáveis.

Após a prematura morte da sua mãe, Philip acaba por viver com os seus tios num ambiente extremamente religioso, que lhe toldará a sua posterior visão do mundo; sabe-lo-á, até bastante cedo, que não é um sítio justo: órfão de pai e mãe, ao que se junta o seu pé boto, fazem com que Philip precocemente se questione – “porquê eu?”, e são estes os elementos basilares que provocam uma forte reacção ao mundo que o rodeia, e, assim, edificam a sua personalidade. Há, Por exemplo, um momento especialmente marcante, logo na sua infância, que resume e lança as bases do seu conflito consequente com Deus: antes de ir dormir, Philip reza, e pede encarecidamente que o seu pé boto deixe de o ser. O dia seguinte pela manhã traz uma surpresa que só o é para ele – o seu pé continuou deformado – e uma forte angústia que lhe ensina o que é realmente a fé, e o lança numa tenra crise existencial.w-somerset-maugham

Depois, Philip continua a edificação da sua personalidade, fruto, na maior parte das vezes, do acaso mais do que planeamento prévio, entre o colégio interno que frequentou até a adolescência, a estadia na Alemanha, e o tempo passado em Paris em busca de realizar o seu sonho como pintor, numa incessante busca por um qualquer tipo de liberdade. Paradoxalmente, a obsessiva paixão que desenvolve com uma rapariga banal, Mildred, prende-o a uma errática ilusão – terá sido sequer amorosa? – que vai despoletar grande parte das verdades universais do livro.

Em termos literários, tudo é relatado num tom cru e pouco romantizado, sem grandes requintes estilísticos (o próprio Somerset Maugham disse, certa vez, que “sabia que não tinha qualidade lírica”). Apenas nos vale a própria pessoa de Philip, e as suas considerações sobre o resto do mundo: frequentemente mordazes e irónicas, perfeitamente coerentes com as acções e condicionantes da personagem. Ao contrário de outras obras do cânone dos Bildungsroman, nome dado às obras que incidem no crescimento duma personagem – como A Montanha Mágica, bem mais densa e filosoficamente pertinente, de Thomas Mann; ou num caso menos extremo, As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow;  – é absolutamente necessário que consigamos empatizar com Philip Carey. Depende da capacidade do leitor em identificar-se com uma personagem sofrível e martirizada pela ordem e padrões da vida, e cujas acções assumem, frequentemente, dimensões tragi-cómicas.

Caso se empatize com Philip, A Servidão Humana transforma-se num romance directo, e revelador de um âmago com o qual muitos de nós se podem, de alguma forma, identificar; é, na boa tradição de Bildungsroman, uma história particular de traços universais. Em Portugal, a mais recente edição ficou a cargo da Asa, com a capa retirada do filme de 1934, baseado no livro, com Bette Davis e Leslie Howard.

 

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