Fanny & Alexander – Ingmar Bergman

Fanny&AlexanderIngmar Bergman é um dos grandes realizadores do séc. XX. Não será novidade para muitos – basta recordar obras como O Sétimo Selo (1956), Morangos Silvestres (1957), ou, num registo mais críptico e formal, Persona (1966). O seu cinema continha um padrão de fácil reconhecimento, atormentado pelas existenciais questões da vida após a morte, da mente humana, e de identidade.

A sua prolífica carreira – da qual Woody Allen foi confesso admirador, e onde retirou alguns alicerces para a sua própria visão – materializou mais de 40 longas-metragens, e contribuiu também para o teatro, ou a ópera; esta transversalidade artística revela-se indelevelmente nos seus filmes, quando a representação visual das feições e expressões dos actores é tão ou mais importante que as outras componentes do filme. Bergman faz parte do cânone obrigatório de qualquer verdadeiro apreciador de cinema.

A génese de Fanny & Alexander remonta, no mínimo, ao Outono de 1978. Bergman achava-se domado pela ansiedade, intermitentemente presente ao longo da sua vida, e prepara a sua última adaptação ao cinema. Remonta ao rico imaginário da sua infância – sempre presente, consciente ou não –  e transporta-a para o grande ecrã, dividida entre a indubitável auto-biografia e a riquíssima obra de Charles Dickens, uma das suas influências assumida na auto-biografia “Images: My Life in Film“. É assim que nos leva a conhecer a família Ekdahl, prósperos e bons vivants, e a trama que parte desde a morte do pai de Fanny e Alexander.

Todos os temas recorrentes de Ingmar Bergman estão presentes em Fanny & Alexander: os diálogos existenciais, o medo e a ansiedade, a sexualidade, a inevitabilidade da morte. Presentes, mas talvez sem o desespero fatalista de outros tempos, como se um declarado retorno à infância apaziguasse o seu íntimo. Assim, permite-se a explorar terrenos para além das suas preocupações, que se revelam explicitamente – como, por exemplo, a vida após a morte – duma forma despreocupada, quase gentil. E tudo o resto se dá como a mais bela peça de teatro, envolta no maravilhoso manto da inocência infantil.

Ao todo, foram filmadas mais de 24 horas de fita, e o longo processo de edição contrariava os requerimentos do estúdio de produção, que pretendiam um filme curto e que pudesse ser mostrado nas salas de cinema. À imagem do que aconteceu com Cenas de um Casamento (1973), há duas edições em circulação: uma com cerca de 300 minutos, dividida em episódios para consumo televisivo, e uma edição de cinema, com pouco mais de três horas . Bergman é mais afecto à edição mais longa, mais condizente com a sua visão, embora a versão de cinema seja um excelente ponto de partida para uma das mais icónicas obras do realizador sueco.

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2 thoughts on “Fanny & Alexander – Ingmar Bergman

  1. Olá Alexandre, estou fazendo uma análise de Fanny e Alexander, e estou pesquisando sobre sua adaptação. Vc cita que Begman usa obras de Charles Dickens, sabe me dizer mais sobre isso, por favor.

    1. @thais Olá! Perdoe-me a resposta tardia, mas o WordPress não me notificou do comentário.

      De facto, a ligação entre o Dickens e o Bergman não é evidente, nem é fácil chegar lá através do Google. No livro “Ingmar Bergman’s The Silence: Pictures in the Typewriter, Writings on the Screen”, da autora Maaret Koskinen, há essa referência à influência de Dickens no sueco, e Maaret cita a autobiografia do próprio cineasta, “Images: My Life In Film”, onde o próprio escreve sobre vários períodos da sua vida e, em particular, passa por (todos?) os filmes da sua filmografia. Acho que é um excelente recurso se quer aprofundar os conhecimentos sobre Bergman.

      Espero que seja notificada desta resposta!

      Obrigado pelo comentário.

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