Vi a trilogia Back To The Future em 2015.

Fica aqui um texto,  a propósito do dia 21 de Outubro  (uma data incontornável na trilogia Back To The Future), escrito, originalmente, para o Arte-Factos. 

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Comecemos por admitir, desde já, a condição sob a qual escrevo este artigo: vi a trilogia Regresso ao Futuro, pela primeira vez, em 2015.

«É aquela com um carro que voa?», retorqui, quando a proposta me foi oferecida. Após devidamente repreendido pela ingenuidade, porque, afinal, «aquele não é um carro qualquer», ficou combinado que eu serviria como a cobaia do Arte-Factos, já que nunca havia sido exposto às aventuras de Marty McFly e do cientista Emmett Brown.

Mas, abordar uma trilogia tão mediática como Regresso Ao Futuro é um problema em várias frentes, e as minhas preocupações prendiam-se, sobretudo, com a sua idade: tendo o primeiro volume saído em 1985, é possível que a enorme legião de fãs tenha hoje uma ideia toldada pelo tempo e pela nostalgia. Por outro lado, os 30 anos que nos separam podem ter datado, irreversivelmente, as obras realizadas por Robert Zemeckis e escritas a mãos-meias com Bob Gale. E digo-o já, para que os fãs possam descansar os seus ímpetos revolucionários, que Regresso Ao Futuro é, realmente, um óptimo pedaço de cinema blockbuster, sem nenhum outro que se lhe compare nos dias de hoje (mais recentemente, talvez Scott Pilgrim tenha chegado perto).

Vamos por partes.

O conceito do primeiro filme partiu duma ideia de Bob Gale quando, com o livro  de curso do pai na mão, indagou quanto à probabilidade de os dois, na escola secundária, serem amigos. Mais tarde, produtor e futuro realizador tentaram vender a história, mas sem sucesso – os grandes estúdios acharam a premissa demasiado infantil, e a Disney, por sua vez, não arriscou numa narrativa em que uma mãe «gets the hots» pelo próprio filho. Quando, finalmente, conseguiram vender o filme à Universal – e com o precioso aval de Steven Spielberg, que apadrinhou o projecto -, o sucesso estava garantido.
Ninguém resistiria à química e carisma dos dois protagonistas – ainda que Michael J. Fox por pouco não tivesse perdido o papel de Marty -, e os eighties encontraram o mais memorável momento cinematográfico da década, com uma óptima narrativa, um humor acessível e highly quotable. Estavam dadas as referências que não tardaram a permear a pop culture adentro.

Quanto ao segundo volume, este não havia sido previamente planeado, mas realizou-se devido ao enorme sucesso comercial do primeiro. Filmado quatro anos depois do primeiro, é este filme que separa os críticos de cinema dos verdadeiros fãs. Uns, que vêm a fórmula ser utilizada uma e outra vez, com algumas cenas e piadas recorrentes, numa narrativa algo repetida, embora se tenha provado ganhadora; outros, que ainda assim o conseguem apreciar como uma honesta e bem-intencionada continuação do acto anterior, mas agora num imaginário geek muito mais rico. Desta vez, Marty tem que viajar ao futuro para salvar a família de algumas más escolhas, e é presenteado com um 2015 recheado de hoverboards (e houve quem acreditasse mesmo na sua existência!) e televisões futuristas. A narrativa, como já referi, sabe um pouco a comida requentada, mas com os temperos todos em ordem. É um feel good film, afinal de contas. E dos bons!

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A lição de continuidade foi aprendida durante o interregno entre o primeiro (1985) e o segundo (1989) volumes, e a equipa de produção decidiu, acertadamente, rodar as filmagens do terceiro logo quanto possível. O que não se adivinha, porém, era que Marty McFly viajasse, desta vez, para o longínquo 1885, para resgatar Dr. Emmett. Numa homenagem ao cenário western, tão proeminente no antigo cinema americano, assume o nome de Clint Eastwood – com referências a “The Good, The Bad and The Ugly“. De resto, a fórmula continua presente, sem sobressaltos, acompanhada pelos recorrentes gags que fazem as delícias aos fãs da trilogia, pese embora este terceiro volume seja por muitos considerado o mais fraco. Em boa verdade, é possível que o subplot romântico do Dr. Emmet retire alguma da tensão narrativa que tão presente esteve nos outros dois volumes, mas tudo foi compensado no final da história, bem apontado e sem qualquer tipo de pontas soltas.

Vi os três filmes de uma assentada (e hei-de revê-la mais tarde!) e as minhas preocupações, afinal, não se justificavam: a aventura de Marty e Emmett não se datou com o tempo, devido às excelentes escolhas na sua realização. É pouco dependente de efeitos especiais, os diálogos são intemporais, e a linha dos três volumes é coerente.

A história é das mais bem escritas dos últimos anos, e todos os pormenores da trilogia são deliciosos. 30 anos depois do lançamento do original, vive uma privilegiada posição no mundo do cinema blockbuster, construindo a sua reputação no grande sucesso que alcançou logo em 1985. Fê-lo em jeito e com estilo, e dificilmente o seu sucesso se replica nos dias de hoje com um outro filme.

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Em relação ao futuro da série, pouco mais há a dizer. Zemeckis e Gale vetarão qualquer tipo de iniciativa de ressurreição dos filmes – e estão em pleno direito jurídico de o fazer – e o mais próximo que houve de um quarto volume ficou à responsabilidade da TellTale Games, que criou algo como uma história animada jogável, disponível para tablets e consolas.

E hoje, dia 21 de Outubro, o imaginário de O Regresso ao Futuro vive no presente, para, amanhã, ser inteiramente parte do nosso passado, um imaginário ao qual poderemos sempre regressar através das re-edições em DVD e Blu-ray – no fundo, o mais próximo que temos de uma máquina do tempo é o próprio cinema.

«É a melhor trilogia de sempre» disseram-me, para que aceitasse o convite. Agora, estou inclinado a concordar.

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