A Wikipedia como ‘força do mal’.

[ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO OBLI]

Desde a sua génese, em 2001, a Wikipedia assumiu-se como um portal de referência, e, justamente ou não, leva o rótulo de informação fiável, e de qualidade. Neste momento, é de esperar que uma qualquer pesquisa no Google devolva uma página da Wikipedia logo no primeiro resultado; para encontrar uma alternativa ao portal americano, por vezes é necessário chegar à segunda ou terceira páginas. No entanto, nos últimos anos tem havido uma crescente preocupação com a “monopolização” do conhecimento por parte da Wikipedia – uma das vozes desta oposição é a de Piero Scaruffi, “renascentista” contemporâneo, que mantém o seu website em scaruffi.com.

Levantaram-se questões relevantes. Como sabemos, a Wikipedia, ao contrário de uma enciclopédia convencional – a ferramenta que veio substituir nos tempos modernos -, é editada por qualquer pessoa, independentemente do seu grau académico e interesses pessoais; algo que não sucede na redacção de uma enciclopédia, onde há um maior escrutínio no conteúdo, e cujo processo é mais fidedigno. Um dos passos marcantes no percurso da Wikipedia deu-se em 2002, quando o seu co-fundador Larry Sanger (que, entretanto, abandonou o projecto), preocupado com o crescente amadorismo dos artigos, propôs recrutar nomes académicos para a escrita de artigos especializados. O outro co-fundador, Jimmy Wales, que agora lidera e dá a cara pelo projecto, não concordou.

Jimmy Wales diz, a dada altura, numa entrevista: “Às vezes, alguém que estudou um dado tema durante a vida inteira publica um artigo. Passado um pouco, um rapaz de 17 anos edita o artigo – na maioria das vezes, este último está correcto”. É uma constatação perigosa, que define a abordagem da Wikipedia aos longo dos últimos anos. A informação rápida (wiki significa ‘rápido’ na língua havaiana, e pedia deriva de enciclopédia) é o grande mote, e o seu lema – sum of all human knowledge – inspira uma bela imagem, embora simultaneamente utópica.

Seguindo o raciocínio, e sem resvalar para o espinhoso terreno da filosofia, recordemos o problema da verdade, que é objectiva e categórica. Será legítima a premissa deste projecto, sem o auxílio de académicos especializados? É pertinente. Ou, por outras palavras, poderá equiparar-se o conhecimento de cem pessoas, sem estudos, ao de um académico? E basta olharmos as estatísticas para ficarmos (negativamente) impressionados: se contarmos os cerca de 30.000 editores activos, um número que tem declinado cada vez mais, são mais de 4 milhões de artigos (só na língua inglesa) que precisam de manutenção. À procura da soma de todo o conhecimento humano, corremos o risco de nos enganarmos ainda mais.

Para além deste problema – atenuado quando se usa a Wikipedia como um ponto de partida, e nunca como finalidade – há um outro, de igual gravidade e também efusivo. Nos bastidores de redacção de artigos, há uma luta constante nos bastidores sem se chegar a um consenso, ou, pior ainda, um artigo redigido com apenas um ponto de vista dominante (basta pensarmos em questões sensíveis como a religião e a política). Por isso, o percurso da Wikipedia tem-se pautado por alguns maus momentos. Fora a remoção de certos artigos, mais publicitários que informativos, ou os ocasionais atritos provocados pelos artigos mais sensíveis – na língua inglesa, entre estes contam-se George W. Bush, o anarquismo, e Muhammad -, em 2005 estalou o verniz da credibilidade da Wikipedia: o estudante universitário Virgil Griffith utilizou o seu programa WikiScanner para cruzar endereços IP de editores anónimos com as sedes de várias empresas, e o seu programa devolveu imensos resultados: entre outras coisas, descobriu-se que a Apple editava a página da Microsoft e vice-versa. Até rivais políticos o faziam! (e pasmem-se: houve até, na instalações da CIA, quem se dedicasse a aperfeiçoar a página sobre lutas de lightsabers). Tudo isto apenas vem a confirmar algo que há muito se suspeitava, que a Wikipedia, por trás da idílica premissa, serve, ainda que de forma não intencional, interesses menos evidentes.

Mas tudo isto não seria problemático, caso não houvesse uma realidade maior que ultrapassa a existência da Wikipedia: cada vez mais, e parece uma característica dos tempos que vivemos, a informação torna-se efémera e pouco contestada, como se fosse refém da real intenção de quem a publica. Isto, porque muitos se satisfazem apenas com as primeiras linhas de uma notícia ou artigo; apenas uma ínfima fatia do público utiliza a Wikipedia como é suposto (consultando as devidas fontes e aprofundando a pesquisa). Por outras palavras, a manipulação (intencional, ou não) é facilitada. A verdade perdeu a sua relevância.

Para concluir, não esqueçamos as portas que este projecto conseguiu abrir. Afinal de contas, para países em desenvolvimento e de pouco acesso a uma educação própria, este tipo de páginas assume uma maior importância. Para ler superficialmente ou iniciar uma pesquisa, também serve o propósito. Por outro lado, é importante uma utilização sensata desta ferramenta. O verdadeiro conhecimento obtém-se de uma forma activa, inquisitiva, e com espírito crítico. As intenções da Wikipedia são tão nobres e bem intencionadas como utópicas. E puxando outra vez o argumento de Scaruffi, e caso a fundação Wikimedia não aja de forma mais activa na manutenção do projecto, a Wikipedia será, certamente, usada como uma “força do mal”.

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