Roberto Rossellini – Europa 51

220px-Europa_'51_posterHavia, na Europa cinquentista, um movimento cinematográfico paralelo ao cinema americano de Hollywood. Ao invés de cinema de entretenimento, idílico e luminoso, sempre cadente para um final feliz, este neo-realismo, que albergou, até, o Aniki-Bobó do nosso Manoel de Oliveira, marca a diferença nas narrativas que escolhe para contar. Sempre retratos de uma realidade não fantasiosa, como também pelo método de produção, recorrendo a não-actores, recrutados nas ruas, e predominantemente filmados ao ar livre, no campo ou nos subúrbios, fora dos sets profissionais; assim surge o neo-realismo, como documento histórico e retrato genuíno de sociedades. Entre os seus maiores dinamizadores consta o italiano Roberto Rossellini, a cujos filmes, pelas novas tecnologias de tratamento de imagem, foi dado um novo fôlego.

Em Europa 51, temos a exímia Ingrid Bergman, sua esposa (e com quem encetou uma das mais bonitas histórias de amor no cinema), figura de proa do elenco, no papel de Irene Girard, uma jovem, mãe, e casada com um bem-sucedido homem de negócios. O seu filho, de 7 ou 8 anos, à imagem de muitas outras imberbes personagens de Rossellini, extravasa um singular sentido de alienação e inocência, como se nascesse para um outro mundo que não este. Em breve consuma o seu suicídio, abalo maioral na vida da sua progenitora, e catalisador para uma profunda mudança na sua índole. Tudo isto acontece, de facto, nos primeiros 20 minutos de filme. Uma forma inusitada – pela força das imagens – de introduzir uma história.

A morte do filho impõe-lhe uma forte responsabilidade de dar sentido à sua vida, e é precisamente esta jornada que acompanhamos, localizada na Itália do pós-Segunda Guerra, também ela na necessidade de se reerguer dos destroços. Ao longo do filme, há breves laivos de uma subjacente ideologia comunista, rapidamente ultrapassados por uma ideologia assente no bem e no amor pelo próximo, na igualdade, etcetera etcetera; mais interessante, é a filmagem lúgubre de Rosselini, o retrato neo-realista desta Itália, a jornada espiritual de Irene contra as contradições do conforto da sociedade pensada apenas para alguns.

Europa 51 não pertence ao cânone essencial de Rossellini – mais rapidamente pensamos nos filmes Germannia, Anno Zero e Roma, Città Apperta -, mas estão presentes neste filme de 1952 elementos comuns à sua filmografia. Poder-se-á dizer de uma estrutura mais acessível, alicerçado na personagem afável de Irene, e decalcado na linearidade de uma comingof-age espiritual, sem nunca pôr de parte os ingredientes do neo-realismo. Será, digamos assim, dos filmes menos “crus” e mais aproximados à filosofia hollywoodesca que lhe conhecemos, e, por isso, um excelente ponto de partida para quem não conhecer o seu cinema. Recomendado.

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