Room 237 – Rodney Ascher

The Shining é, tal como o havia escrito na passada semana, uma obra inqualificável do americano Stanley Kubrick, sem consenso geral quanto ao seu real significado. Superficialmente, a jornada da família no isolado The Overlook Hotel é ilusoriamente simples e descomplexada – ora não fosse Kubrick um realizador atento ao mais ínfimo detalhe nos seus filmes – e foi mote ao documentário Room 237 a busca por possíveis interpretações de The Shining. O realizador Rodney Ascher, que aqui se estreou em projectos de longa duração, junta as opiniões e interpretações de vários cinéfilos, que em comum têm não mais que a obsessão pelo filme de Kubrick, numa ordeira exposição de ideias: são estas as teorias que abarcam o genocídio dos nativos americanos, à possibilidade de The Shining ser a ignominiosa confissão de Kubrick por ter secretamente colaborado na encenação da viagem de Apollo 11 à Lua. Ao todo, cinco distintas interpretações, às quais é concedida a liberdade de se justificar com o auxílio de cenas do próprio filme. Em matéria documental, o realizador tem mérito na igual liberdade de exposição dos vários sujeitos, importantíssimo em obras deste género, por forma a não influenciar falaciosamente a sua audiência – falhou, contudo, numa pequena passagem, quando alguém afirma ver a face de Kubrick nas nuvens que sobrevoam as estradas montanhosas, sem lhe apontar, explicitamente, os traços. Um descuido na realização, não deliberado, que infelizmente nos distância do interlocutor e desacredita automaticamente o seu ponto de vista. De resto, Room 237 cumpre com as suas intenções, competente na forma como nos acompanha pelos vários entendimentos que os sujeitos colocam na essencial obra do realizador americano, e saímos, de certa forma, mais entendedores quanto à objectividade cinematográfica de The Shining.

Sabemos pois que o filme, como arte, resvala na linha entre o objectivo e subjectivo, concreto e abstracto, bebendo aos dois em igual medida; a componente pessoal e interpretiva é indispensável à experiência do cinema. Este documentário não nos traz respostas quanto às reais intenções de Kubrick, mas apresenta-nos válidas interpretações para todos os gostos, e mais que um documentário sobre The Shining, é fiel retrato de como uma obra finita e objectiva se muta em tão distintas formas aos olhos de cada indivíduo. É esta concepção maior do conceito de cinema, como experiência intrinsecamente pessoal e nunca inteiramente transmissível, que constitui um todo maior que a soma das partes de Room 237 – um documentário que seria um compêndio de opiniões sobre o filme de Kubrick, mas que se expande num testemunho de adoração cinematográfica. Não temos todos, afinal, um filme pelo qual somos saudavelmente obcecados?

 

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