A Mosca, e notas de uma semana passada – 22 a 29 de Março

O atraso da publicação é lamentável, de facto, mas a qualidade do conteúdo é inegável: A Mosca traz uma óptima emissão, e o cinema – fora uma pequena desilusão – é do melhor que aqui tem passado. Encontramo-nos para a semana. Até já!


A Mosca – 56º Emissão

Nesta emissão, demos, nos momentos iniciais, destaque ao hip-hop. A abrir, milo com uma amostra do seu trabalho Things That Happen at Day, de 2012. O rapper americano, que se move pela cena independente, tem na sua música uma bem sucedida mistura de letras cuidadas, fruto do seu passado como estudante de Filosofia – é frequente apoiar-se nos textos de Nietzsche ou Schopenhauer. Para quem gostou, é obrigatório ouvir o seu EP. Os Outkast têm direito a trazer-nos uma faixa cantada por Andre 3000, assim como também pudemos ouvir Mos Def a espalhar magia numa canção do álbum Black on Both Sides (1999). A seguir, os ecléticos japoneses Boredoms, que já fizeram quase tudo ao longo da carreira. Aqui ouvimos uma amostra do álbum conceptual Vision Creation Newsun, também de 1999, que desperta a curiosidade para o resto do álbum; e como já lhes sentíamos a falta, passámos também pelo mundo de Hail to the Thief (2003), o álbum que precede In Rainbows (2007) na carreira dos Radiohead. É um fantástico álbum – como o são todos, afinal! Para o resto da emissão, reduzimos a velocidade e planamos na música de Bonnie ‘Prince’ Billy e Jessica Pratt, duas óptimas amostras de folk intimista e óptimos cantautores. Depois, seguem-se os misteriosos e experimentais The Residents, a mostrar uma faixa de um dos álbuns mais enigmáticos de sempre, aos quais sucedem os The Grubby Mitts – numa fantástica faixa que terão mesmo que ouvir. Acaba a emissão com Fennesz e as suas composições que parecem suspensas nas teias do tempo.

Mas além da (boa) música, esta emissão contou também com uma experiência diferente: ao longo do programa, ouvimos excertos do documentário Música em Pó, da autoria de Eduardo Morais. Tem cerca de uma hora de duração, e permite-nos espreitar as incríveis colecções de vinil em território nacional. Além disso, são imperdíveis as histórias e as opiniões dos intervenientes, num filme que é, simultaneamente, uma autêntica carta de amor à música e ao formato icónico do vinil. Podem vê-lo aqui – vale mesmo muito a pena.

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Cinema

blue-is-the-warmest-color-posterBlue is the Warmest Color (Abdellatif Kechiche, 2013) – Digamo-lo antes de mais nada: Blue is the Warmest Color é um grande filme – mas um que será também polémico, desconfortável e desafiante. Seja como for, este trabalho do tunisino Abdellatif Kechiche venceu a reputada Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2013, e rapidamente fomentou o grandioso estatuto que o levou à entrada directa na colecção Criterion, em DVD e Blu-ray, uma espécie de arquivo digital que compila marcos clássicos e contemporãneos do cinema. Ora, é evidente que o mundo se rendeu quase unanimamente a este filme, narrativa que acompanha a jovem adolescente Adèle no seu último ano da escola secundária, e, simultaneamente, no primeiro da grande descoberta de si própria; urge, portanto, ir além da superfície da narrativa e identificar a sua substância, identificando os motivos pelos quais Blue is The Warmest Color é tão grandioso. Quando nos é apresentada Adèle vemo-la levianamente bonita, uma aluna cumpridora e leitora nos tempos livres, mas a sua curiosidade, embora inquisitiva como consequência da idade, não avança além da zona de conforto – até que um dia se cruza com Emma, a rapariga do cabelo azul, a cor que marca indelevelmente a normalidade da vida de Adèle e o início de uma jornada de descoberta, sensual e sexual, apaixonada e apaixonante. Um dos pontos fortes de Blue is the Warmest Color está em não se embandeirar na representação carnal do amor a que se propõe (as fortíssimas cenas lésbicas são longas e mais substanciais que muita pornografia rasca), optando por um fiel retrato do desabrochar de uma relação; a metamorfose de Adèle é explícita, no desinibir dos seus preconceitos físicos, como implícita, nas pequenas mudanças que lhe entrevemos através da fantástica cinematografia do filme, nos planos longos e intimistas, reveladores do frenesim invisível que a sua pele esconde; o encanto de uma óptima narrativa alia-se a cenas que são simplesmente belas – como o primeiro encontro entre as duas mulheres, o contraste físico entre o aprisionamento de uma, e a liberdade de outra; ou o revigorante banho de Adèle na imensidão do mar francês, azul como a imensidão do céu, que a engole e a envolve como o azul do calor de Emma. Blue is The Warmest Color é mais do que um filme romântico-dramático, sincero e provocador na sua intensa frontalidade, exímio na sua execução; é sobretudo um retrato no qual se turvam os tão predominantes preconceitos de género, para que no final se lembre apenas a titânica complexidade do amor que só interessa a quem o viveu. Fantástico filme.

15Ikiru (Akira Kurosawa, 1952) – Ikiru, japonês para o verbo viver. É este o mote do filme de Kurosawa, o primeiro que vi do lendário realizador, porventura mais conhecido pelo seu trabalho Seven Samurai (1954). A história é nobre: Kenji Watanabe trabalha num movimentado escritório no Japão, típico empreendimento burocrata sem alma nem sentido. A rotina quotidiana não o atormenta, até à fatídica notícia de um cancro, que lhe permite apenas seis meses de vida. O choque de Watanabe leva-o à desenfreada procura por um sentido de vida, um último objectivo que traga paz ao seu espírito – não é esta uma questão que com todos nós se relaciona? Ikiru, embora carregue o peso da sua idade quinquagenária, tem em si muito de actual; o que por si só atesta a intemporalidade do cinema do realizador japonês, seja em termos narrativos como cinematográficos (e as cenas de Ikiru são quase sempre recheadas com movimento em toda a dimensão do ecrã, na periferia do habitual ponto de atenção do espectador) Poderá ser complicado convencer um amigo a ver este filme, pelos seus longos planos, de ritmo oposto ao frenético cinema americano, e pontilhados por diálogos crípticos e existenciais – merecedores de uma especial atenção – mas Ikiru é mesmo um filme belíssimo. Fica a promessa de voltar, em breve, ao cinema do japonês Akira Kurosawa.

men-women-children-posterMen, Women and Children (Jason Reitman, 2012) – Não me quero alongar com este filme. Muito sucintamente, Jason Reitman é o realizador por trás de Juno (2007), um dos primeiros filmes que me conquistou. Volvidos oito anos, ainda não conseguiu um feito de semelhante importância, o que é uma pena. Men, Women and Children começa até com a premissa interessante de explorar os problemas da enorme presença da tecnologia nas nossas vidas, mas as suas personagens, todas vítimas da mesma maleita, caminham constantemente numa corda que balança entre o engraçadinho e o ridículo, ao que se junta o desenvolvimento cliché da narrativa. Não desgostei completamente do filme, que foi, certamente, muito bem intencionado; mas neste caso, a ideia não transpareceu da melhor forma para o cinema e daí resulta um filme estranho, com demasiados pontos baixos, e que interessa apenas a fãs devotos de filmes coming-of-age, a quem ainda procura a irreverência sloppy de Juno, ou, em último caso, quando nada de mais interessante está a passar na televisão.

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