A Mosca, e notas de uma semana passada – 15 a 22 de Março

Para esta semana, as atenções repartem-se entre a música, o cinema, e também a televisão – sobre a qual falaremos mais tarde, ainda esta semana. Até lá, há nova emissão d’A Mosca para ouvir, e duas sugestões de cinema.


A Mosca – 55º Emissão

Esta semana, demos, nos primeiros minutos, destaque a três álbuns conceptuais: o primeiro é de Marvin Gaye, um clássico da soul e da música social consciente, de nome What’s Going On (1971), que nos conta a perspectiva de um veterano da guerra do Vietname. Logo a seguir – e sem qualquer necessidade de grandes apresentações – chegam os Pink Floyd com uma canção de Dark Side of the Moon (1973), e para terminar este ciclo, o músico português José Cid. Antes de enveredar pela música popular, foi em tempos um dos músicos mais respeitados da cena do rock progressivo, e o seu álbum 10.000 Anos Entre Vénus e Marte (1977) atesta a qualidade da sua música, tão assente em texturas sintetizadas e espaciais. Fez-se ainda ouvir Brainticket, os krautrockers alemães, e o seu álbum Cottonwoodhill (1971). Nesta emissão pudemos ouvir as novidades do mundo do hip-hop, com os novos trabalhos de Kendrick Lamar, sobre o qual escrevemos na passada semana, e os experimentais Death Grips, de quem ouvimos o single do seu último álbum Jenny Death. Entrando na fase da electrónica, temos a presença de Holly Herndon com uma novíssima faixa, como também James Blackshaw e Ryosuke Miyata, ambos com álbuns que datam de 2015. A emissão fecha com Leafcutter John, e a promessa de que para a semana há mais música curada pel’A Mosca. Até já!

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Cinema

Ordet_La_palabra-480454657-largeOrdet (Carl Th. Dreyer, 1955) – Para abrir a semana, mergulhei no cinema lento e convoluto de Carl Dreyer. Este realizador dinamarquês, um dos mais reputados e estimados do género, é porventura mais conhecido pelo seu filme mudo de 1928 The Passion of Joan of Arc, uma referência para vários cineastas por esse mundo fora. Ora, não foi esse que aqui me trouxe, mas sim Ordet, que data do ano de 1955. O filme, cuja narrativa é baseada numa obra dinamarquesa, trata uma pacata família rural, na qual o patriarca, cristão devoto, vive com os seus três filhos: um ateu, um outro que se apaixona pela filha dum mentor da congregação religiosa local, e o último, Johannes, a braços com um distúrbio na sua sanidade mental, e que julga ser a reencarnação de Jesus Cristo. As cerca de duas horas de fita dão tempo para que as personagens se desenvolvam e expressem os seus pontos de vista, para que quando chegue o apogeu narrativo – o complicado parto da esposa do filho ateu – haja um conflito entre os vários pontos de vista, tão enraizados, quase dogmáticos, e díspares. A atmosfera do filme pauta-se pelos planos lindíssimos de Dreyer, com a câmera que plana circularmente pela casa, e os jogos de sombras – a dicotomia de luz e escuridão – tão amplamente aproveitados e potenciados neste filme a preto e branco; assim se reúnem as condições para albergar os longos e filosóficos diálogos, onde reside a verdadeira alma desta obra. Ordet começa em andamento lento e assertivo, envolvendo-nos sorrateiramente no seu mundo; no final, despoleta em nós uma ténue mudança, não superficial, mas uma que remete ao nosso âmago e que nos desafia para uma reflexão, como o germinar de uma semente que em nós se plantou. Não é um filme necessariamente cristão – muito menos católico – mas um que trata a fé com uma frontalidade impressionante (como o faria mais tarde Ingmar Bergman com o tema da mortalidade). Fica, assim, a memória de um fantástico filme, incrivelmente belo, e a vontade de conhecer o restante da sua filmografia.

478Le Mépris (Contempt) (Jean-Luc Godard, 1963) – Custa-me escrever sobre filmes que não creio entender na totalidade, ou, pelo menos, quando as suas intenções não me são razoavelmente claras. E não conhecendo muito bem o trabalho de Godard, Le Mépris deixou um travo agridoce quando o vi. O início do filme levanta uma curiosa história, com um litígio entre um produtor de cinema e o seu argumentista Fritz Lang – sim, o realizador alemão a representar-se a si próprio. Para resolver o imbróglio, é contratado um outro escritor, que está, por sua vez, casado com a bela Camille (interpretada pela lindíssima Brigitte Bardot), que em pouco tempo estará irremediavelmente atraída pelo produtor americano. Ora, Le Mépris tem mais substância para além desta premissa banal. Há uma aura de sátira e uma espécie de auto-crítica que percorre todo o filme, e que não tenta, de todo, ser subtil: note-se os créditos iniciais, narrados em vez de lidos, enquanto que se filma a própria rodagem de um filme, ou a estranhíssima relação entre todas as personagens. Ainda assim, o filme é estranhamente cativante e tem momentos muito bem conseguidos, como uma cena decorrida entre o casal num apartamento (memorável, e ainda hoje estudada por amantes do cinema ou estudantes de arquitectura), ou o humor meio pateta de algumas acções das personagens. No ar fica a dúvida: será este um falhanço de Godard, ou um dos seus filmes mais geniais? É difícil ficar-lhe indiferente. Le Mépris provavelmente fará mais sentido, e espero entender melhor as suas intenções, vendo-o uma segunda vez, depois de outros filmes do realizador francês.

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