A Mosca, e notas de uma semana passada – 8 a 15 de Março

Outra semana passou, sem, infelizmente, muito cinema. Mas gostámos do que vimos! Fica aqui a nossa opinião sobre o nosso consumo cultural da anterior semana.


A Mosca – 54º Emissão

Para esta edição, o primeiro nome que chamámos foi o de Serge Gainsbourg, cantor francês que teve no álbum Histoire de Melody Nelson (1971) o seu maior êxito. É um álbum conceptual, de apenas 28 minutos, sobre um hipotético encontro com uma jovem. A sua sonoridade foi, de certa forma, pioneira, uma interessante mistura de um rock extrovertido com os relatos, muito spoken-word, de Serge, e é uma grande influência no mundo da pop, pelo que o recomendamos. A seguir, Tricky expõe o seu trip-hop extravagante do álbum Maxinquaye (1995), e logo a seguir viajamos pelo dub de Scientist, um clássico dum género que tem as suas raízes no reggae. Brian Eno David Byrne, dos Talking Heads, juntam esforços e compõem um fantástico álbum, My Life In The Bush Of Ghosts (1981), e que se tornou um ponto de referência para o bom uso de samples. Na incursão pela folk, fomos descobrir a americana Judee Sill, um nome menor do género, e cujo talento é inversamente proporcional à fama que alcançou; este segmento fica devidamente complementado com a presença de Simon & Garfunkel, sobre os quais escrevemos há alguns dias. A (boa) música portuguesa tem finalmente o merecido destaque, com a presença de Pedro Barroso a interpretar a fantástica ‘Balada do Desespero’ (ouçam-na!). Para a fase final do programa, ouvimos os pesados novos trabalhos de Spectres e Liturgy, sem esquecer o clássico experimental dos Nurse With Wound, cuja história do álbum ficou explicada e documentada na emissão. É um registo de difícil digestão mas completamente diferente de tudo o que ouvimos até então – não só por isso vale, claro, e percebe-se que não agrade a todos os ouvintes. Terminamos com os alemães Oval, e com a promessa de que para a semana há mais.

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Cinema

 

Lenny (Bob Fosse, 1974) – Não contava ver outro filme de Fosse tão cedo, mas todas as circunstâncias apontavam para o Lenny, baseado na vida do comediante de stand-up americano Lenny Bruce. Curiosamente, já no álbum dos Simon & Garfunkel (Parsley, Sage, Rosemary and Thyme) se ouve o seu nome, assim como é normal surgir associado ao humor do também americano Bill Hicks. São duas personalidades importantíssimas numa espécie de contra-cultura, aproveitando a liberdade dos seus polémicos espectáculos para denunciar a falsidade da sociedade americana. Essa liberdade foi-lhe retirada a dada altura na sua carreira, o que o levou a repensar o seu estatuto de artista. Terá sido esta a progressiva causa do seu declínio, que culminou numa overdose. Ora, Bob Fosse pegou na verídica história de Lenny Bruce e dramatizou-a a seu gosto, passando pela ascensão do artista como também pela atribulada vida amorosa, intercalando a ascensão profissional e a vida pessoal de Lenny Bruce com excertos dos seus espectáculos, reinterpretados fielmente pelo actor Dustin Hoffman. Lenny, no entanto, é uma dramatização romantizada, baseada levemente nos factos e com uma dose generosa de momentos extravagantes, muito ao estilo de All That Jazz (do qual falámos há umas semanas, e que apenas sairia 5 anos mais tarde), como se o seu trajecto tivesse sido o de uma rockstar – o que não deve fugir muito à verdade. Não conhecendo o trabalho do comediante, aqui está uma óptima oportunidade para que o façam, embrulhada num filme competente, embora não tão gratificante como o outro filme do realizador.

TGrave_of_the_Fireflies_Japanese_posterhe Grave of the Fireflies (Isao Takahata, 1988) – Tenho como opinião que a arte nipónica, ou pelo menos, a que mais regularmente nos chega, é uma arte despreocupada, infantil quase, de uma ingenuidade facilmente associada ao estado de espírito de todos os japoneses. Deste país, mais facilmente reconhecemos livros de manga ou as séries animadas que dão pelo nome de anime, embora seja também um país de tradição de bom cinema – recorde-se o clássico realizador Yasujirō Ozu, quase nos primórdios da sétima arte. Pela mesma linha de ideias, os filmes de animação são usualmente rotulados pela suposta falta de seriedade das suas histórias, ou pela ideia errónea de terem no público infantil o seu alvo maioritário; mas o cinema de animação pode ser veículo de boas histórias e mensagens fortíssimas, como constatamos em The Grave of the Fireflies, e que desafia todas as minhas falaciosas convenções da arte japonesa. Aqui é contada a história, na primeira pessoa, de um jovem que morreu como consequência da Segunda Guerra, e que nos conta as suas impressões deste conturbado período. As trágicas circunstâncias do início da sua adolescência levam-no a tomar a guarda da sua irmã mais nova, e rapidamente a sobrevivência se torna mais importante que a felicidade, na jornada que os leva à procura de um abrigo, e alimento para o dia-a-dia. A gravidade da situação é atenuada pelos ingénuos traços dessa cultura japonesa, sobremaneira presentes neste filme, nos singelos momentos que documentam a jornada das duas personagens: são cenas mundanas, quase, como a delicadeza dos irmãos a partilhar o arroz do jantar, ou quando Setsuko, a mais nova, descobre alguns rebuçados presos na sua caixa de alumínio – momentos doces e enternecedores, mas provocados por um mal maior, explícito mas não evidente, como, neste caso, o exagerado racionamento da comida que levou muitos cidadãos a perecerem devido à fome. Há, por isso, uma intrínseca magia a este filme de Isao Takahata, na forma como desenvolve, lenta mas assertivamente, a nossa intimidade com as personagens, enquanto que expõe um Japão devastado no seu território e no seu orgulho; simultaneamente, é também reforçada a reputação do cinema de animação. Do mesmo realizador, urge ver um dos filmes mais aclamados de 2013, The Tale of Princess Kaguya, como também, e do outro cineasta Hayao Miyazaki, a obra de 2001, Spirited Away. Posto isto, The Grave of the Fireflies é um filme lindíssimo e surpreende todos os que se deixam levar pelo mundo desenhado por Takahata, puxando a tímida lágrima ao mais estóico dos espectadores. A rever num futuro (muito) próximo.

 

 

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