To Pimp a Butterfly – Kendrick Lamar

Só o ouviríamos na próxima semana, mas o álbum chegou mais cedo aos serviços de streaming e vendas digitais. Ei-lo! To Pimp a Butterfly é o terceiro registo de estúdio do americano Kendrick Lamar, depois da sua afirmação como uma das vozes mais autênticas do hip-hop americano no trabalho good kid, m.A.A.d city (2012), onde expõe a dura realidade da vida no bairro de Compton, nunca caindo no erro de glorificar o estatuto de gangster. O seu novo álbum prossegue a linha de hip-hop consciente do seu anterior registo, sendo que o grande destaque é a maturidade lírica que se espalha por todo o seu trabalho e que lhe vale a comparação com os grandes nomes da época dourada de 90. A dimensão deste álbum revela-se nas repetidas audições, e é um dos melhores que 2015 tem para oferecer.

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O hype para um novo álbum de Kendrick ganhava força quando trouxe o single i ao programa americano SNL, e constatámos o som cheio, funky q.b., a transbordar uma irrequieta energia. Para este novo trabalho, há um esforço para regressar às origens, tanto do género do hip-hop, como da história musical negra, evidente nas diversas incursões pelo jazz, Rn’b e funk; consequentemente, estas influências fazem de To Pimp a Butterfly um álbum muito dinâmico sonicamente, ao qual se juntou a fantástica produção, mais madura que no registo anterior. Tematicamente, contam-se mais semelhanças que diferenças: em GKMC, questionava a brutalidade das vida nos guettos dum ponto de vista extremamente sincero e quase existencialista, mas agora extendem-se os seus horizontes e intervém a favor da justiça social, apelando à dignidade racial dos negros e ao equilíbrio social. Este orgulho pelas suas raízes é posto em maior destaque logo no sample que abre a primeira faixa (“Every nigga is a star”), da autoria do cantor jamaicano Boris Gardiner, e por demais evidente no segundo single do álbum, The Blacker the Berry, onde, em rimas cantadas entusiasticamente, a profunda aceitação da raça negra confronta o seu público. Esta gradual maturação lírica permite que o seu olhar atento atente noutros problemas superiores, como a religião ou verdadeira motivação da vida, de uma forma mais frontal e menos metafórica do que nos habituámos no seu álbum anterior (“I’ve been lookin’ for you my whole life, appetite / For the feeling I can barely describe, where you reside? / In a woman, is it in money, or mankind?”).  Tanto a frontalidade como a destreza lírica fazem de Kendrick uma das vozes mais temidas e respeitadas na cena, mas parte do próprio a iniciativa de revelar as suas próprias fraquezas, expondo tanto o seu complexo messiânico de querer ser a voz de uma geração (“Want you to love me like Nelson [Mandela]/ want you to hug me like Nelson”) como as acutilantes dúvidas do americano em relação à complexidade da religião e também à certeza da sua mortalidade – terá aliás sido desde a intervenção no single de You’re Dead!, a canção Never Catch Me, que se lhe nota um maior à vontade por outros terrenos musicais, assim como a curiosidade por uma qualquer figura divina, uma metafísica entidade religiosa.

O álbum corre durante uma titânica hora e vinte minutos, e há, à passagem do tempo, skits nos quais Kendrick declama uma espécie de poema, juntando-lhe progressivamente mais um e outro verso. O seu significado vai-se desdobrando, e com ele seguimos nós, guiados até um final estrondoso e de uma ambição inqualificável – uma conversa com o ídolo Tupac. Para sentir o verdadeiro impacto da presença do falecido rapper americano, é preciso recordar a sua importância no meio do hip-hop nos anos 90, assim como a sua influência para as gerações seguintes. Kendrick terá crescido a ouvir Tupac, e presta-lhe aqui uma das mais fortes e geniais homenagens que já se ouviu no mundo da música. Mortal Man, a última canção, documenta este hipotético encontro e serve como exposição do conceito por trás de To Pimp a Butterfly, uma espécie de resumo da matéria dada que liga todas as pequenas peças do puzzle que Kendrick preparou para nós.

Poder-se-á dizer que a luta política e social se une a uma consciencialização do artista como pessoa, as duas contribuindo para as dúvidas e incertezas de quem quer apenas continuar fiel a si próprio. Para Kendrick, as maiores preocupações são o seu papel no mundo do Hip-Hop, a rejeição dum mundo falso e materialista que não cessa de o seduzir, e –  mais urgente que todos os outros – a noção do verdadeiro poder da sua voz. E puxando a  metáfora do casulo e da borboleta, o americano é agora como um insecto a bater as asas e a fazer-se ao mundo, ciente da sua fragilidade como pessoa e efemeridade como artista. To Pimp a Butterfly documenta-o em brutal honestidade, e esta fraqueza torna-se uma força. Em Março, descobrimos um fortíssimo candidato a álbum do ano, enquanto que ninguém lhe rouba o estatuto de instant classic no género do hip-hop.

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