Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt é um dos mais misteriosos e elusivos artistas no mundo da música. As suas entrevistas são parcas e pouco comprometedoras, e grande parte dos jornalistas já vai intimado a não abordar certos tópicos – entre eles, o final da sua relação/colaboração com Inga Copeland, que com ele colaborou vários anos no projecto Hype Williams. Neste seu último álbum, lançado em finais de 2014, há a sensação de Blunt querer levantar o véu sobre a sua pessoa, para logo a seguir se esconder outra vez; faz por merecer a nossa atenção, embora tudo o que revele não passe de uma amálgama de meias palavras e contradições. Ainda assim, Black Metal é mesmo um título apropriado: pede emprestado o nome de um género de grande intensidade, a mesma que aqui se manifesta não por meio de um som cheio e opulento, mas sim por música desconcertantemente honesta e provocatória.

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É logo na primeira faixa, Lush, que Blunt estabelece o tom deste seu registo. Recupera um sonhador sample dos Big Star, exímio da guitarra jangle, e declara o distanciamento necessário entre ele, o confessor, e o ouvinte, que o escuta (“Stay out of it/And everything you see/Stay out of it/And everything you hear”). O deliberado contraste entre a música ingénua e sonhadora com a autoridade confessional do músico transportam-nos a um mundo, tal como ele, ambíguo e elusivo, no qual a confissão tem tanto de necessária quanto sinistra. Essa necessidade é inteligível nas letras de, por exemplo, 100, intimamente romântica, ou na faixa que se segue, Heavy, de tonalidade diametralmente oposta, na qual o seu desespero, expresso na orquestração disfuncional de um piano, está convenientemente camuflado por debaixo do loop, algo intrusivo, que serve à melodia principal. Liricamente, Blunt dá-nos o suficiente para formarmos a nossa opinião, e constatamos-lhe a alma partida, os sonhos quebrados; o processo de recuperação, levado a cabo de uma forma ainda mais nefasta, assim como a realização de uma paz interior (no dueto com Joanne Robertson, em Molly & Aquafina). São confissões e devaneios que nos levam à metade do álbum, onde temos a instrumental Forever – e a grandiosidade dos seus 13 minutos – a consumar a primeira parte de Black Metal.

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Antes do lançamento do seu novo trabalho, Blunt teve uma intervenção na qual expôs o seu ponto de vista relativamente às questões raciais dos negros, e sobretudo, às suas referências culturais. Nomeadamente, do que julga ser um erro quando se atribui a classificação preto a alguma referência cultural caucasiana, i.e., “o Cobain preto”, por ser uma reapropriação de uma cultura já existente, e assim sendo, “não genuína”. O próprio queixa-se que poucos negros, seus “brothers”, estão presentes nos concertos. Quanto desta preocupação se pode considerar verdadeira, e a sua presença neste álbum, são considerações para as quais não tenho resposta – podemos apenas especular. A verdade é que a segunda parte do álbum invoca um outro Blunt, tal como a outra metade de uma moeda (e não menos interessante). Começando por X, a segunda canção mais longa do álbum, seguir-se-á Punk, com uma sonoridade mais esclarecida e sóbria que na primeira metade. Aqui, ouvimos “this is how it’s gonna be/I’m not who I’m meant to be” e “feds are closing in on me/everyone knows its me/what else can I do but hide?“. É este o mote para a segunda parte: mais directa, provocadora, como se depois de lidar com os fantasmas evocados em Lush, 100, etc., restasse agora esclarecer a sua própria identidade; esta é provavelmente a grande preocupação de Dean Blunt. Não só a sua, como a da sua cultura.

Depois de dispender algum tempo com Black Metal, sentimo-nos presentes no obscuro mundo de Dean Blunt, sendo impossível dissociá-lo dos conceitos de perda, de procura, de identidade. Mas de tão pouco que Dean nos dá, não é possível ter uma visão da grande imagem que quis pintar. Musicalmente, temos aqui um dos discos mais interessantes de 2014: à primeira audição, os arranjos não se evidenciam e parecem ter sido feitos sem cuidado ou grande ambição. A verdade é que, com o tempo, se descobrem as suas subtilezas, ao habituarmo-nos à estranha cinematografia da sua música – atente-se na forma como se expressa em Heavy, por exemplo. Tematicamente, porém, há uma intenção que não transpareceu de forma tão clara, e que o músico tem abordado nas suas últimas intervenções (embora esta possa ter sido uma decisão consciente). Neste momento, Dean Blunt é senhor de uma das vozes mais incisivas culturalmente – basta ouvir, por exemplo, a performance de dia 15 de Fevereiro, ou ler as suas entrevistas -, mas temo que a sua ampla visão não se permita confinar aos limites da música. Agora, é esperar pela sua próxima intervenção, com a certeza de que será difícil não nos surpreender.

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