Paul Thomas Anderson – The Master

Paul Thomas Anderson é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes do cinema americano contemporãneo. Dele, temos o épico Magnolia (1999), uma tocante e épica história de várias vidas; Punch-Drunk Love (2001), o sublime, pouco ortodoxo retrato de uma história de amor, e com um surpreendente Adam Sandler no papel principal; mais recentemente, There Will Be Blood (2007), uma jornada pelos Estados Unidos no final do século XIX, num conto moral que de justo modo se tornou num clássico moderno. O seu toque de Midas não gera ouro literal, mas filmes de uma simplicidade enganadora, de subtilezas, segredos e significados meticulosamente espalhados nas várias camadas interpretativas do seu cinema. A seu tempo, exploraremos melhor a sua carreira. Por hoje, dirigimos a nossa atenção a The Master, filme de 2012, com as fantásticas prestações do trio composto por Joaquín Phoenix, Amy Adams, e o enorme Philip Seymour Hoffman.

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A narrativa desenrola-se no período pós-Segunda Guerra, na qual Freddy Quell lutou como marinheiro. As consequências traumáticas da guerra são inconclusivas, ainda que se perceba que Quell não está são; é um homem irremediavelmente bêbedo, de comportamentos animalescos e erráticos, e ganha a vida numa série de empregos meniais, ainda que não os consiga manter por muito tempo. Absolutamente deslocado da sociedade, certa noite cruza destinos com Lancaster Dodd, autoproclamado filósofo, físico, comandante do navio Alethia e líder da Causa, uma organização de culto religiosa, que lhe ganha um certo afecto e o toma debaixo da sua asa. Quell torna-se “o protegido e cobaia” e Dodd, que tenta reprimir-lhe o lado animalesco e educar as suas emoções, como que o doma, digamos assim, e tenta ser o seu mestre.

A nós, mais não se pede do que a nossa atenção para tudo o que à nossa frente se desenrola, porque as várias interpretações possíveis prendem-se nos detalhes. The Master é assumidamente ambíguo e misterioso nas suas pretensões e mensagem, embora haja referências evidentes a instituições e problemas actuais (a Causa, por exemplo, é acutilantemente semelhante ao conceito da Igreja da Cientologia). Mas faltam-nos as respostas para outro tipo de questões: o que move Freddy Quell? Quem é, realmente, Lancaster Dodd? Quanto poder detém na verdade, e quais as reais motivações de Peggy? Há pistas e indícios nas acções, expressões, e diálogos – as subtilezas que acima mencionei -, embora nunca uma resposta definitiva. The Master não se enquadra como um filme linear e de respostas fáceis, optando Thomas Anderson pela via da experiência, da intuição, de uma viagem a bordo dum navio do qual ele é o capitão – ora não fossem a viagem e a mudança motifs recorrentes na sua filmografia. Assim, não caiamos no erro fácil de julgar um filme pelo seu enredo, e atentemos, digamos assim, no grande plano.

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Falemos então da fantástica cinematografia, que frequentemente isola Quell de um mundo que teima em não o aceitar; nos maravilhosos planos marítimos, deleite máximo dos que os puderam experienciar no cinema. Ouçamos outra vez a banda sonora, que tal como no anterior There Will Be Blood (2007), ficou à responsabilidade de Johnny Greenwood, que marcará presença também em Inherent Vice, a estrear ainda este ano em Portugal. Recorde-se a fantástica química do trio de actores: Phoenix e Amy encontrar-se-iam um ano depois em Her, enquanto que Seymour Hoffman cimenta o seu lugar como um dos mais queridos, e versáteis actores de que há memória. E, finalmente, recordemos cenas como a da prisão, ou mesmo o último diálogo entre Dodd e Quell. Fantásticos momentos.

Não será um filme que recomendo a todos – há sequer filmes assim, universais? Mas The Master, utilizando qualquer um dos seus fortes argumentos, convida-nos para uma viagem, e deixamo-nos ficar porque nos agrada o cheiro a maresia, o ímpeto de mudança; partimos, tal como Freddy, despreendidos e sem destino. O cinema de Thomas Anderson ensina-nos, não a comparar o início e o fim, mas sim a olhar o meio – assistir à evolução da metamorfose. A isso se propõe The Master, mais um marco da fantástica carreira deste realizador americano.

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