Spike Jonze – Her (e um cheirinho de Lost In Translation)

her-spike-jonze-poster-405x600Numa visão futurística do nosso mundo, as pessoas vestem-se de uma maneira estranha, mas reconfortantemente romântica. A arquitectura é simples, sem extravagâncias, em suaves tons de vermelho e amarelo. As cidades, limpas e espaçosas, são percorridas por milhares de pessoas – cabeças baixas, andar apressado, e a atenção exclusiva para um aparelho electrónico que pauta o andamento das suas vidas. Não estranhamos este futuro, porque já, em parte, o vivemos. De Spike Jonze, temos Her – em português, ficou algo como Uma História de Amor.

Theodore, com o seu simpático sorriso e olhar sonhador, recita uma carta ao computador. No seu emprego, escreve textos personalizados para que outros enviem às suas caras metade, e poucas não são as vezes em que se encarrega, também, da respectiva resposta. Mas não se adivinha que este cupido, que tantas relações sustenta com as suas palavras, ainda não se tenha recomposto de um penoso divórcio com a sua mulher, cujos papéis estão ainda por assinar. “Play meloncholy song” – pede ao seu aparelho, no caminho para casa. “I miss you. I mean, not the sad, mopey you – the old, fun you.“, escreve-lhe a amiga Amy. Assombrado pela solidão, a sua vida muda na manhã seguinte, com a chegada de um sistema operativo novo, munido de uma personalidade que se adapta às necessidades do utilizador, intrigando-o deveras. A relação que prontamente se desenvolve entre Theodore e Samantha (o sistema operativo) sustenta-se na honestidade e confiança, ao contrário das barreiras de comunicação do seu anterior casamento, e há uma interessante dicotomia entre os dois: enquanto que Samantha se descobre progressivamente, numa estrada que a leva à humanização, Theodore percorre o caminho inverso e aprende a amar uma máquina.

Como seria connosco, se tivéssemos na palma da nossa mão uma indissociável e sempre presente entidade, capaz de ouvir e formular pensamentos? Jonze materializa um mundo em que isso não só é possível, como plausível – e assusta ver que pouco separa a sua visão da nossa realidade. Her transcende a sua premissa parte romântica, parte sci-fi, e toma-nos numa reflexão da nossa própria vivência: somos, mais que nunca, seres estranhos e solitários; o bizarro e esquizofrénico mundo em que vivemos condiciona a nossa natureza, de tal modo que só o amor não basta para suportar as excentricidades e complicações da comunhão na vida moderna. É uma crítica que se mascara em forma de desabafo nos vários flashbacks da vida entre Theodore e a sua ex-mulher Catherine.

“You always wanted to have a wife without the challenges of actually dealing with anything real. I’m glad that you found someone. It’s perfect.”
“You always wanted to have a wife without the challenges of actually dealing with anything real. I’m glad that you found someone. It’s perfect.”

Her é um filme cuja pertinência se eleva tendo em conta os desenfreados avanços tecnológicos da nossa geração – e é, sem dúvida alguma, um enorme filme – mas não foi o primeiro, nem será o último, a retratar o tema da solidão. E quero agora falar-vos de um outro filme, também ele fantástico, e que ganhou um renovado interesse aquando da chegada do filme de Jonze: Lost In Translation (2003). De entre as evidentes semelhanças – Scarlett Johansson no papel principal, acção a desenrolar-se em utópicas capitais tecnológicas, e a supracitada solidão – atentemos que é um filme com cunho de Sofia Copolla, que em 2003 assinava o divórcio com Spike Jonze. Ora, tendo isto em conta, é como se houvesse um twist em Her, e encaramo-lo como uma resposta a Lost In Translation, que, por sua vez, muitos acreditam ser uma “carta” a Spike Jonze.

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Sem querer tomar mais do vosso tempo – minutos que vos distanciam de ver, ou rever, este fantástico filme – permitam-me resumir num parágrafo a fantástica prestação de Joaquin Phoenix, que já havia sido fenomenal em The Master (2012), como também a da própria Scarlett Johannson. Mais ainda: mesmo que a premissa romântica não apele, vale a pena ver pelos apontamentos de futurologia que Jonze emprega em Her, e pelas fantásticas imagens, um autêntico regalo para os olhos. Também a banda sonora, à responsabilidade dos improváveis Arcade Fire, assenta que nem uma luva à atmosfera que tão bem se cria em Her. Posto isto, duvido que, feita uma entrega séria a este precioso pedaço de cinema, ele não vos conquiste. Que grande, grande filme.

HER

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