Nicolas Winding Refn – Only God Forgives

Only-God-Forgives-Character-Poster-Ryan-GoslingHouve, no ido ano de 2011, um filme que se destacou dos demais pela sua irreverência, fantástica história e cinematografia, e uma icónica banda sonora – foi Drive, um bem sucedido exercício de cinema por parte de Nicolas Winding Refn, com um irrepreensível Ryan Gosling no seu papel principal. Mantendo Gosling como protagonista deste Only God Forgives, as expectativas para o seguinte filme do realizador dinamarquês tornaram-se demasiado altas, e no rescaldo do seu lançamento, temos uma crítica predominantemente negativa e um público confuso quanto à real mensagem do filme: ingredientes suficientes para se considerar um fracasso.

A sinopse: Julien e Billy, erradicados numa soturna e misteriosa Banguecoque, mantêm um clube de muay-thay como fachada para um negócio de tráfico de droga. Entretanto, Billy mata uma jovem de 14 anos, despoletando uma surreal cadeia de vingança e contra-vingança, envolvendo um chefe de polícia corrupto, Chang, e Crystal, mãe dos dois irmãos. A história desenvolve uma aura de tragédia grega, onde tudo tem proporções épicas e determinantes. No lado técnico, aperfeiçoa-se em Only God Forgives o estilo cinematográfico de Drive – longos, bonitos planos e com predominância da cor, complementados pelos icónicos néons de Banguecoque, e, claro, a apropriadíssima banda sonora, que goza de um maior protagonismo na história. Gosling cumpre num papel que não exigia muito de si, assim como o resto do elenco.

Muitas das desilusões advieram de querer que Only God Forgives fosse um Drive 2, mas há uma decisão consciente de Nicolas Winding Refn para que não o seja. Aqui, o realizador não apostou na fórmula fácil e arriscou um meio termo entre as brutais e gratuitas cenas violentas de Tarantino, e o simbolismo pausado e metódico de David Lynch – do início ao fim, há uma forte dicotomia entre Chang (Deus) e Crystal (Diabo), além das  imensas referências ao complexo de Édipo, assumindo-o como uma temática central e indissociável à compreensão da obra. Vejamos; nas interacções de Crystal com Julian pressente-se uma estranha, incómoda tensão sexual, tanto na possessiva interacção física como nas considerações que tece quanto à sua relação com o irmão (“…Billy era o irmão mais velho e tinha uma pila maior…a do Julian nunca foi pequena, mas a do Billy…era enorme!”); há várias cenas simbólicas, presumidamente no imaginário de Julian, nas quais vemos mãos ao encontro da vagina, e posteriormente ao útero, para mais tarde consumar essa acção no próprio corpo de Crystal, assassinada; e, finalmente, sabemos por Crystal que Julian fugiu dos Estados Unidos por ter morto o próprio pai. Estas conclusões só são possíveis tendo conhecimento de antemão da psicologia Freudiana (que está, de resto, presente como motif em muitos exercícios de cinema), necessárias para a compreensão de várias cenas de Only God Forgives. Fosse Nolan o responsável por este filme, e garantiam-se trinta minutos adicionais de psicologia, como um manual de instruções – Refn, fiel ao lema ‘show, don’t tell’, esperava uma maior capacidade de interpretação por parte do seu público.

O grande problema da recepção crítica a Only God Forgives foi a ponte, ou a falta dela, entre público e realizador; foi dado um passo em frente (ou dois, ou três) quando muitos queriam que andasse para o lado e seguisse uma fórmula que se provou vencedora. Nicolas seguiu o seu instinto e fez o filme que queria fazer, em contraste com o que a audiência queria ver. Para mim, é um bom filme, que peca na surrealidade de alguns momentos e na falta de clareza nas suas intenções. A seu favor jogará o tempo; basta a Refn que continue traçando o seu caminho, para que daqui a uns anos se olhe para este filme com outros olhos – e com outras expectativas.

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