Richard Linklater – Boyhood

Finalmente! Depois de uma estreia a meio-gás, houve finalmente oportunidade de me sentar numa sala de cinema e poder apreciar um dos melhores filmes de 2014 em todo o seu esplendor. A mais recente obra de Linklater não foi consensual como filme do ano, mas unânime no reconhecimento da sua dimensão e importância para a história do cinema. Mas mais que isso, Boyhood carrega uma enorme responsabilidade nos seus ombros: além de mais um filme de Linklater (e lembro que sou fã assumido da sua filmografia), é um épico filmado ao longo de 12 anos (!). É um filme em pleno direito, ou apenas uma fachada para uma produção extravagante? É a primeira pergunta que assoma à cabeça.

Vemos o pequeno Mason, deitado na relva, a olhar para o céu. Com 5 anos, crê saber como vêm as vespas ao mundo – tem tudo a ver com a correcta quantidade de água. E assim somos apresentados; de um lado, o rapaz de olhar curioso, no começo da infância, e de uma vida. Do outro, o olhar atento do espectador que se prepara para uma imersão de 12 anos, condensada em quase três horas, que passa tão rápido como o tempo que deixámos para trás. E, sem segredos, as cenas que se sucedem são o literal crescimento de Mason, desde as brincadeiras com os vizinhos, à descoberta do corpo feminino nos catálogos de lingerie, ao primeiro grande corte de cabelo, ao primeiro beijo. Vemo-lo a formar amizades, a chegar tarde a casa, os diálogos de quem acorda para uma vida – de quem, tal como nós, abandona a inocência para ver o mundo tal como ele é. É um conjunto de acontecimentos que, por si só, pouco ou nada valem, mas o todo é mais do que a soma das suas partes. Vemos vida, na plenitude do significado da palavra, representada no grande ecrã.

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Linkater, aos recorrentes motifs da sua filmografia – a acção temporal, o sentido da vida, as acções e palavras maiores que momentos – junta o feito técnico de uma filmagem prolongada, numa exposição dos ingredientes para este filme. Aqui deu-se, numa escala maior, o efeito “trilogia Before”; se numa ocasião foi recompensador ver a passagem do tempo e Jesse e Celine a crescer, houve sempre um interregno de 9 anos entre os filmes. Há uma palpável mudança no casal, mas à qual não assistimos – aconteceu, simplesmente, pela irrevogável acção do tempo, e apenas pudemos apreciar as suas consequências. Neste caso, em Boyhood, há a ilusão de que o tempo, de uma forma rápida, avança, mas ininterruptamente. Mason é criança, depois menino, depois adulto, mas tudo à frente dos nossos olhos, como se nos sentássemos ao lado de Linklater para ver a acção desenrolar. A justaposição de vários momentos efémeros, que pela sua banalidade se tornam singulares, é um dos pilares do seu cinema e, repito o que disse há uns tempos, a sua maior magia. Transparece a ilusão de que nunca vimos actores em cena, mas pessoas; não retratam personagens, mas sim pedaços das nossas próprias vidas.

E muito queria, e teria, para dizer sobre Boyhood – só que faltam palavras. E mais uma vez, Linklater não desilude, e cimenta o seu lugar como um dos meus realizadores, e contadores de histórias, predilectos. Boyhood é o reflexo da sua ímpar visão. Respondendo à pergunta inicial, não tenho a menor dúvida que mais que o melhor filme de 2014, é um futuro clássico, cujo mérito ultrapassa o seu inusitado processo de filmagem. Ainda estará em cartaz durante algumas semanas. Que se faça justiça a este grande, grande filme!

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