Gus Van Sant – Elephant

elepahntHoje escrevo sobre um dos filmes que mais me marcaram nesta ainda curta jornada cinéfila, porque foi, possivelmente, o primeiro a mostrar-me uma alternativa ao cinema de Hollywood, e consequentemente abrindo-me as portas ao “cinema de autor” e todas as suas virtudes – principalmente, a de poder fugir aos padrões pré-estabelecidos do “cinema de massas”, para que se possa expandir a arte e a visão dos seus autores máximos. Neste caso, o realizador Gus Van Sant, na ressaca de dois sucessos comerciais (Good Will Hunting (1997) e Finding Forrester (2000)), trilha, no ano de 2003, um caminho paralelo e idealiza Elephant, que rapidamente se tornou num pequeno grande segredo do cinema independente americano.

Falar de Elephant implica mencionar o indissociável evento dos tiroteios de Columbine, um massacre numa escola secundária estadunidense, a cujas vítimas há uma implícita e sentida homenagem; daí que o filme decorra, precisamente, num liceu, onde por meio de longos e contemplativos planos de filmagem (alguns chegam mesmo aos cinco minutos, ininterruptos), se perpetuam as várias cenas onde vemos estudantes a atravessar os corredores, outros tirando fotografias para um projecto, ou até um jogo de futebol americano nos campos da escola. A câmera vai saltando de aluno em aluno, dando-nos oportunidade de conhecer um pouco de cada um; ao fim de meia hora, há caras que vamos reencontrando e jovens com quem simpatizamos – Van Sant integra-nos, por meio das suas longas, íntimas filmagens, na vida desta secundária. Contudo, e sabendo de antemão os traços do evento que inspiraram Elephant, a passagem do tempo torna inevitável a chegada de um final, que desafiando as convenções Hollywoodescas, não será feliz.

Posto isto, o título do filme interpreta-se como uma referência a uma expressão da língua inglesa (elephant in the room) que refere àqueles problemas ou verdades inconvenientes que, sendo óbvios, são ignorados por todos, ainda que seja evidente a sua presença – tal como a insólita situação de ter um elefante na sala de estar; uma expressão, que no contexto do filme, refere ao problema do bullying e à falta de devido acompanhamento aos jovens emocionalmente mais complexos. Ou seja, Van Sant consuma uma bonita homenagem às vítimas do massacre como também uma acutilante crítica ao sistema educativo e sociedade americana; tudo isto, embrulhado num filme que é belo por si só, tanto nos seus estóicos planos cinematográficos, como nos naturais diálogos improvisados, a arte de Van Sant é, mais do conseguir apreender na perfeição as dinâmicas sociais que compõem uma escola, fazer-nos crer que vivemos tudo o que foi retratado, como se fôssemos também um aluno na secundária. Foi esta a minha introdução ao cinema independente. Espero que para outros também possa ser, e que desperte o natural gosto pelo cinema que tem sido, devido aos filmes de pouca qualidade, adormecido em todos nós.

elephant

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s