Thomas McCarthy – Win Win

Eu, caros leitores, adoro cinema. Reconheço-lhe o potencial de contar uma história como nenhum outro meio consegue, e mantemos uma relação, a meu ver, bastante saudável. Quando as circunstâncias o permitem, dedico-lhe a minha atenção e dele espero um mundo. A possibilidade desta imersão é característica inerente a um bom filme – apreciar a sua história, como também as nuances da sua realização; desmontar as várias cenas, apreciar os diálogos, descobrir as várias interpretações da série de simbolismos que acarreta, invariavelmente, uma boa amostra de cinema. No entanto, não me custa entender que esta admiração não seja comum a toda a gente – afinal, antes de ser arte, o cinema era entretenimento -, como também o sei que poucas serão as ocasiões nas quais há tempo, e sobretudo, paciência, para empreender em filmes que não sendo pretensiosos, têm a sua complexidade.

Recuperando a premissa inicial do cinema, mas já sem a graça de novidade de outros tempos, há muito entulho produzido, cujas finalidades são preencher infinitas prateleiras de video-clubes e ocupar as grelhas de fim-de-semana dos canais generalistas. São ferramentas de conteúdo vago e inócuo, desprovidos de alma, que se esquecem tão facilmente como vieram sem que ninguém lhes sinta a falta. Uma espécie de cinema de marca branca, portanto. No entanto, de vez em quando há pequenas pérolas que nos surpreendem: falo, por exemplo, do trabalho de Thomas McCarthy, Win Win.

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A história acompanha o dia a dia de um professor de luta-livre, advogado e pai de família, numa casa que poderia ser a de qualquer um de nós. O seu quotidiano altera-se com uma prova de fogo à estrutura moral do protagonista, e a improvável chegada de um jovem à cidade, que rapidamente se integra no seio familiar. Daí, desenvolve-se numa improvável mescla de drama, comédia, e luta-livre, esplanando-se por cerca de duas horas. Não há muito mais a acrescentar a esta curta sinopse. Nos papéis principais, temos Paul Giamatti, com uma sólida prestação, e o novato Alex Shaffer, que surpreende q.b.

Ora, ainda que a narrativa pudesse, por si só, ‘fazer o filme’, foi nas entrelinhas que justificou a minha admiração. As doses certas de drama e comédia conferem-lhe a capacidade de passar uma mensagem sem cair no erro de se levar demasiado a sério, e o andamento do filme é adequado, explorando correctamente as diferentes vertentes da narrativa – fazê-lo de forma mais precipitada torná-lo ia um quanto ou tanto esquizofrénico. Tecnicamente, nada de muito transcendente se fez em Win Win (e, simultaneamente, nada de gritante a apontar), ainda que a sua fotografia seja, em algumas cenas, bastante agradável.

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Nada de especial se perderá ao fazer vista grossa a este filme. Faz, precisamente, parte do seu charme assumir a leveza da sua história e da sua entrega –  na sua companhia, são um par de horas bem passadas na simplicidade de ver algo ao qual carinhosamente se chama slice of life. Mas não nos enganemos ao julgar que não vale a pena vê-lo! Há lugar para estes filmes no nosso mundo. Que nos arrancam sorrisos depois de breves, mas necessárias, consternações. Por vezes, faz-nos falta um filme que incendeie a nossa paixão cinéfila; neste caso, temos uma espécie de acolhedor e brando lume – a uns, lembrá-los-á do bom que é ver um filme para ser entretido (sem nos sentirmos estupidificados), e a outros talvez desperte o amor pela arte do filme. Isto sim, é de valor.

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