Francis Ford Coppola – The Conversation

Sabem, caros leitores, aquele sentimento, distinto de tantos outros pela sua singularidade, que nos assola quando se desdobram os créditos no final de um bom filme? Um breve arrepio aqui, vestígios de um frisson ali, o aconchego de saber que mais uma obra ganhou o seu espaço no nosso imaginário arquivo cinéfilo. Constitui um vício, e talvez, arrisco, uma necessidade. Procuramo-lo sempre que nos sentamos na sala escura de uma sala de cinema, ou no quente do nosso lar, ou em qualquer outro lugar onde seja possível viver o sonho do filme. E há uma infinita distância entre os filmes que vemos, e os que vivemos. Uma essencial arte que está apenas ao alcance dos melhores.

04-van-window

Pelo auspicioso começo deste texto, facilmente se entende a minha apreciação deste filme. E, sublinho-o enfaticamente, que grande filme. Se algo ainda houvesse a provar por parte de Ford Coppola, dois anos volvidos desde a estreia de The Godfather, The Conversation serviria de mote suficiente para o distinguir dos restantes realizadores da sua época; se a este filme lhe apontarmos os defeitos (que serão certamente poucos), as suas qualidades e deliciosos detalhes fazem tender para o seu lado a balança – a uma história simples, Ford Coppola extraiu todo o potencial; a apenas uma mão cheia de relevantes personagens, dá-lhes um sentido, personalidade e propósito (Harry Caul, representado por Gene Hackman, é uma das mais fascinantes personagens do cinema); na arte de contar uma história, o realizador americano assume-se como mestre.

O meu entusiasmo para com este filme é consequência, julgo eu, de uma característica que pessoalmente tenho procurado encontrar nas obras às quais assisto: gosto de me sentir imerso no mundo ao qual me entrego durante a duração do filme. E neste thriller de espionagem, que se lançou ao público numa época de ressaca do escândalo do Watergate, a imersão é realmente a palavra de ordem, provocada de uma forma exímia. Sente-se, deste o início, uma quase palpável tensão, como que um pressentimento de que algo vai, brevemente, acontecer – logo na cena inicial, um inusitado plano aéreo revela-nos uma avenida na qual passam centenas de pequenas pessoas, hesitando, a cada movimento, sobre qual devemos focar a nossa atenção. É quase um metafórico aviso do que se seguirá no filme: um calculado exercício de algo ao qual os americanos chamam de pacing, um jogo de paciência entre Caul e a sua gravação, e também uma reflexão no conflito moral que a espionagem acarreta.

Por horas e horas divagaria pelas várias qualidades que atribuo a este filme. Evitemos, ao máximo, que isso aconteça! Mas não me resigno a não recomendar que o vejam o mais rapidamente possível, e faço votos de que nele apreciem todos os pequenos detalhes que, na minha opinião, o elevam a um dos maiores exercícios de cinefilia de sempre. E remato esta minha crónica (que estava, há semanas, a ser construída) nesta romântica nota: eu cá não sou realizador de cinema. Mas se acaso o fosse, daqui a uns anos daria uma entrevista a um qualquer jornalista e dir-lhe-ia, sem dúvida alguma, que The Conversation é (ou seria) o meu pequeno manual de instruções, no que toca à arte de fazer bom cinema. E daí, o obrigatório agradecimento: obrigado, Francis Ford Coppola.

harrys privacy

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s