Lenny Abrahamson – Frank

Admito que a minha agenda cinéfila se move por demais nas teias da produção independente, ou por entre os filmes que mais tarde assumem estatutos de clássico e culto. Aprecio construir a minha pequena história do cinema, tendo também a real percepção de que – felizmente – tenho ainda muito para ver. Ora, por entre o revivalismo gosto também de estar a par de produções contemporãneas, para que não me aconteça de julgar estar a viver uma época que não a minha própria, e daí quis o acaso interceptar o meu caminho com o de Frank; este aproveitou a oportunidade, e quer pela singularidade da sua personagem, quer por ter trazido uma mensagem significativa, acabámos por passar um bom serão.

frank-movie

A história de Frank poderia ser a de qualquer um Steve, ou qualquer um Martin, ou qualquer um John. Como um qualquer outro que viva, Frank respira, e come, e dorme, e fará certamente as suas necessidades em tempo e lugar oportunos. Distingue-se de um qualquer Adam pelo absurdo adorno que ostenta no lugar da cabeça, uma espécie de melão ventilado, parte indissociável do seu corpo, desajeitadamente acoplada ao seu pescoço. A juntar às suas capacidades fisiológicas e anomalias estéticas, adianta-se que Frank é também um músico, um poeta, um alguém dotado de uma extremamente prolífica propensão artística. É uma cabecinha especial, a deste Frank – ele é realmente um rapazinho especial. Já do outro lado, a história apoia-se, não num qualquer outro John, mas sim num Jon: Jon Burroughs. Este é um Jon muito particular; além de vermos o filme pela sua perspectiva, Jon é a pessoa mais normal (leia-se banal) do mundo. Aspirante a ser alguém no estranho mundo da música, o mesmo acaso que pôs Frank na minha vida colocou Jon na de Frank – e mais do que um falhado jogo de palavras, este é o mote do espectáculo a que vamos assistir.

Frank é um filme de extremos, quando se pedia que fosse tão linear e simples como a sua premissa. Não sabemos por certo se se trata de um drama, ou de uma comédia; de um documentário musical ou um retrato de um manicómio. A própria história perde-se nesta infinidade de dicotomias e parece perder o seu rumo algumas vezes durante o filme. Desta forma, no final haverá os que se encantam com a singularidade da peça (como eu) e outros que se desnorteiam com os sucessivos twists, por vezes a roçar o que de mais parvo e ridículo já se fez (como eu!). Por outro lado, a performance de Fassbender, sempre desprovido do conforto de recorrer a expressões faciais, nunca parece limitada ao dar vida à sua personagem e explorar todas as nuances do espectro sentimental; consegue até ofuscar os autênticos erros de casting/falta de propósito de certas personagens. O ênfase dado à problemática do artista como humano brilha com todo o seu esplendor, por meio das perguntas que nos surgem ao longo da história. Donde vem a arte? O que é preciso para a produzir? Será natural, e quando legítima? Mérito para o mentor do filme, Lenny Abrahamson, neste capítulo.

Uns tiros ao lado prendem um filme como Frank ao chão, não permitindo que se eleve a estatutos maiores na história do cinema. Estavam aqui reunidos os ingredientes certos para Abrahamson o perpetuar como um muito sui géneris pedaço de céu na terra; mas é impossível ficarmos demasiado aborrecidos. Frank é encantador à sua própria maneira. Estreia cá, esta semana; vejam-no!

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