Trilogia Before, Linklater e sua filosofia.

Há imensas maneiras possíveis de comparar dois tipos de cineastas. Podemos falar, geralmente, dos bons, e dos maus (embora não ouse atribuir a mim essa autoridade), dos mágicos ou dos realistas. Dos que imprimem um estilo muito característico ao filme, contrastando os com que preferem assumir uma postura mais discreta, chamando mais atenção para factores como o enredo, ou os protagonistas. Dentro desta infinidade de dicotomias, haverá os one trick ponies, ou seja, com apenas uma ideia bem sucedida, e os que não têm dificuldade em sair duma zona de conforto para produzir uma série de bons filmes. São reflexões que surgem como consequência do trabalho do americano Richard Linklater, que se prepara para lançar Boyhood (estreia dia 9 de Outubro em terras lusas).

Com um curtíssimo orçamento e muita ajuda da sua cidade natal, o independente Slacker é lançado em 1991, apenas o segundo trabalho da sua carreira. Filmado, como o seriam outros, em Austin, introduz uma característica basilar no cinema de Linklater: a falta de um enredo convencional (princípio, meio e fim) dando mais ênfase aos diálogos e interacções entre as diferentes personagens. Somos observadores de pessoas e não de uma história, que se desenrola lentamente ao longo de hora e meia, saltando de rua em rua e pessoa em pessoa. Um método que aperfeiçoaria para o seu Dazed and Confused, recriando, em 1993, o último dia de ensino secundário da turma de 1973. Já que o próprio Linklater integrava essa turma, o filme é parte exercício autobiográfico nostálgico, parte bíblia cinéfila para a geração de 70′; e juntando-lhe a fantástica banda sonora, tão bem representativa dos tempos idos, criou-se um filme divertido, despretensioso, com a diversão como mote principal. Merece, indiscutivelmente, o estatuto de filme de culto que ainda hoje ostenta (e terá direito a uma sequela espiritual).

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São os princípios que alicerçam estes dois trabalhos a grande base do seu Before Sunrise, lançado no ano seguinte, um dos motes deste artigo. A premissa é simples, e por pouco era possível confundi-la com um qualquer banal filme romântico; Jesse, um solitário americano de passagem pela Europa, conhece Celine, a parisiense que está de regresso a casa. É precisamente no comboio que se dá o encontro dos dois; a leitura serve como desbloqueador de conversa, e num instante, acabam por almoçar juntos na carruagem-bar. O resto é história. Decidem sair ambos em Viena, e viver, por um dia e uma noite, a concretização de um impulso e um sonho – atrás deles seguimos nós, dentro do sonho emprestado.

O que separa Before Sunrise de um outro qualquer filme romântico? Uma pergunta perfeitamente natural. Começo pelo que será mais óbvio, e aqui figura a sua originalidade. Em termos mecânicos, apraz também dizer que, ao contrário do que se possa pensar, e por muito incrível que pareça, nada, absolutamente nenhuma parte do diálogo é improvisada! Faz pensar no trabalho de casa que os dois actores, Ethan Hawke e Julie Delpy, desenvolveram conjuntamente com Linklater (o enredo foi trabalho pelos três, simultaneamente). Isto não chega, contudo. Para além do visível – para além da acolhedora Viena, para além dos sorrisos cúmplices dos protagonistas, para além da interacção com as várias facetas de uma cidade que prontamente os acolheu – reside algo para o qual Linklater parece ter uma especial sensibilidade, e permitam-me, por favor, o desleixo do cliché, um autêntico je ne sais quoi que o torna muito consciente da condição humana, dos medos, das emoções. Este filme, um clássico de pleno direito, continua com a aventura dos dois nas sequelas Before Sunset e Before Midnight (adianto que deve ser das poucas trilogias que mantém uma qualidade constante). Quanto à filosofia de Linklater, teve direito a explanar-se no também ele fantástico…

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Waking Life, um filme que se reaproxima da estrutura de Slacker, viu a luz do dia no ano de 2001. Produzido inteiramente segundo a técnica da rotoscopia, é esta a primeira impressão que temos com a peça – parece que vemos um esquizofrénico desenho animado, linhas muito ténues que separam as pessoas do restante cenário, o que imprime uma identidade surrealista à imagem. Em comum com o filme de 2001, as várias cenas deambulam entre vivências das várias personagens, mas desta vez sempre muito incisivas nas temáticas filosóficas. Há, no entanto, uma espécie de novelo que reúne todas as pontas soltas que nos são dadas, quase como um elo de ligação entre as várias cenas do filme: o seu protagonista, do qual nunca sabemos o nome, está a sonhar. Neste sentido, creio ser um conceito mais acessível e palpável que Slacker. Aqui, tudo se discute: passamos pela ideologia do existencialismo, para a génese do amor e ligação emocional, não esquecendo a teoria do cinema de Bazin; embora seja um filme, tal como o disse, filosófico, funciona como uma espécie de ‘porta’ para várias ideias, expostas acessivelmente para que o seu público possa experienciar cada uma delas e escolher a sua predileta.

Linklater fez parte da turma retratada no filme Dazed and Confused, conheceu uma mulher numa situação de moldes parecidos com os de Before Sunrise, e não será surpresa quando o próprio diz que a experiência retratada em Waking Life – de saltos consecutivos entre vários planos oníricos – é 100% autobiográfica. Tem o condão de pegar numa história mundana, ou num momento singular, e transformá-los em coisas maiores, que nos vão ao âmago – e este é precisamente o encanto de um bom contador de histórias. O seu último trabalho, Boyhood, acompanha a vida de um rapaz, em tempo real, dos 6 aos 18 anos. Cá o espero.

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