Stanley Kubrick – 2001: Odisseia no Espaço

Desenvolvi, ao longo do tempo, um (bom) hábito de não perscrutar trailers, opiniões, ou até mesmo sinopses, momentos antes de me entregar à visualização de um qualquer filme. Valorizo muito mais uma boa (ou controversa) reputação, e foi desta forma que me entreguei a 2001: Odisseia no Espaço, um projecto de Stanley Kubrick, cujos feitos cinematográficos são, acima de tudo, autênticos marcos da pop culture. Como resultado, dou por mim siderado pelo que vi, e sobretudo pelo que vivi. Kubrick tem aqui um dos mais ambiciosos projectos cinematográficos de sempre, fruto de uma visão irreverente e ímpar como já não se vê no cinema dito mainstream. Sigam-me, por favor.

Hal 9000, uma das personagens pilares da peça
Uma intensa luz vermelha, omnipresente e sobreconsciente – HAL 9000 é o seu nome.

São quatro actos os que compõem a narrativa do filme, mas nunca de uma forma linear, respeitando a convenção cinematográfica de uma história; cada uma das quatro premissas expande-se por terrenos que julgávamos inacessíveis ao cinema, espiralando sem dó nem piedade em longos trechos visuais, muitas vezes provocando mais perguntas do que fornecendo respostas. Estando estas mesmas cenas maioritariamente desprovidas de um diálogo, ou de uma pista que permita descortinar um sentido de linearidade, conduzem-nos numa viagem, só de ida, pelo universo magicado por Kubrick e C. Clarke, os dois argumentistas. Entretanto, descortina-se uma ténue presença de um enredo, quando, de entre os primatas, se ergue um imponente bloco – uns chamar-lhe-ão monólito – que servirá como ponto de referência ao longo do filme. Contudo, nunca ao certo saberemos o que é, nem porque o vemos, nem quem o trouxe. Quem não souber lidar com esta propositada ignorância, ou por outras palavras, falta de conhecimento, terá em Kubrick um péssimo anfitrião.

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Aqui está o monólito – e tudo o que saberemos acerca dele

Prossegue a peça e somos introduzidos à parte mais palpável do enredo, que ainda assim está longe do que ao que se habituou o público em geral (relembro que na apresentação do filme, 241 pessoas saíram a meio). Aqui, apresentam-nos a tripulação humana da nave, e um sexto elemento que a complementa. Trata-se de Hal 9000, que à falta de uma melhor descrição, será um cruzamento entre a Siri e os telecrãs que atormentavam os cidadãos no 1984 de George Orwell. É, por si só, um dos conceitos basilares da obra e que elevou 2001 ao estatuto de ícone da pop culture contemporãnea. A possibilidade da evolução tecnológica e do retratamento emocional do computador é um (dos vários) pontos centrais deste filme, azo de reflexão. Kubrick descaracteriza as fronteiras que separam a máquina do humano, um passo muito sci-fi, que num filme normal seria o grande foco das atenções. Este não é um filme normal, pelo que aqui é apenas mais uma nuance desta fantástica obra – ou viagem, como a apelidei há bocado. É ainda neste acto que encontro uma das minhas cenas favoritas do cinema, e trata-se do culminar da tensão entre Hal 9000 e a tripulação humana. Simplesmente uma cena construída na perfeição: desde a tensa e ofegante respiração de Bowman (mas que afinal pertence ao próprio Kubrick), à desesperante súplica de Hal, módulo a módulo se desconstrói uma máquina e um vilão, tudo ao som da inocente Daisy.

“You’re free to speculate as you wish about the philosophical and allegorical meaning of the film—and such speculation is one indication that it has succeeded in gripping the audience at a deep level—but I don’t want to spell out a verbal road map for 2001 that every viewer will feel obligated to pursue or else fear he’s missed the point.”

Stanley Kubrick

Esta citação de Kubrick é uma consequência das perguntas óbvias que surgem depois das cenas finais, ao apercebermo-nos de que na obra não encontraremos respostas às dúvidas que a todo o momento se levantam. E não são, certamente, poucas! Mais serão se reflectirmos sobre as imensas cenas sem diálogo, às quais eu chamo dádivas visuais, que ganham outra dimensão quando nos lembramos do ano de edição do filme. Estávamos apenas em 1968! É neste sentido que creio haver um visionário em Kubrick. Ao longo de duas horas (e pico), é-nos concedida a oportunidade de viver uma experiência, às cavalitas da sua imaginação, e dela voltarmos (se quisermos voltar) com mais do que partimos. É possível ver, neste filme, apenas uma história futurista; alguns extendem-na a uma bonita alegoria de contraste entre o homem e a máquina. Mas há mais, muito mais: há o detalhe em todo o cenário. A impressionante fotografia, uma constante ao longo da película. O imenso trabalho por trás dos efeitos especiais, que garantem um filme por si só; relembro que corria o ano de 1968, e criaram-se cenas que quase 50 anos depois, são actuais e nada datadas. E não mencionei ainda nem a banda sonora, nem os trabalhos de sonoplastia, também eles magistrais (não consigo deixar de imaginar como seria ter os Pink Floyd a curar a banda sonora, uma possibilidade que foi descartada por motivos de agenda).

Uma das premissas do Coprófago é transmitir, a todos que se considerem receptíveis, o entusiasmo que sentimos junto de uma boa obra de arte. Esta não é apenas boa, como é sensacional, e é, quanto a mim, um dos filmes que me recordou esse mesmo entusiasmo, uma paixão que por vezes se esconde por trás de filmes menos conseguidos, ou da falta de ambição de fazer bom cinema. E mais vos confesso: não tenho por hábito rever filmes – apenas quando os tenho como imensos – e estou capaz de vos convidar a juntarem-se a mim da próxima vez que o vir…será, certamente, para breve.

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